Orgasmo feminino: 5 mitos que impõe destruir

Em Dia Mundial do Orgasmo, uma ginecologista obstetra e uma psicóloga clínica e terapeuta sexual deitam por terra cinco mitos relacionados com o prazer no feminino.

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Unsplash/Maru Lombardo

O orgasmo corresponde ao clímax de prazer sexual, ainda que o prazer sexual seja mais abrangente que o momentâneo orgasmo. E, apesar de toda a investigação em torno do tema — e cerca de 50 anos depois da revolução sexual das décadas de 60 e 70 do século passado (que a Portugal, na época inicialmente mergulhado num regime de ditadura e depois a conquistar a liberdade, chegaria mais tarde) —, vários mitos ainda persistem entre a sociedade como verdades.

Em Dia Mundial do Orgasmo, o PÚBLICO escolheu cinco temas e pediu à ginecologista obstetra Irina Ramilo e à psicóloga clínica e terapeuta sexual Joana Almeida para analisem cinco mitos que, dizem as duas especialistas, foram criados sobretudo pelo “desconhecimento do próprio corpo”.

1. Não se atingem orgasmos sem estimulação clitoriana

Irina Ramilo, ginecologista obstetra, explica que “não existe só esse tipo de orgasmo.” “Existem outros tipos de orgasmo e não tem de ser necessariamente só pela estimulação clitoriana”. No entanto, afirma, “algumas mulheres só o consegum atingir através da estimulação [do clítoris]”. Joana Almeida, da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica, afirma que a estimulação “não é condição exclusiva”, exemplificando com as mulheres que sofreram mutilação genital, mas que dizem sentir prazer. “Será, se calhar, uma experiência diferente da experiência do orgasmo mais fisiológico. Mas acho que não é de ignorar.” 

2. Se não houver ejaculação feminina não é um orgasmo de verdade

As especialistas referem que a ejaculação feminina, também conhecida por squirting, nem sempre é visível, havendo, por outro lado, mulheres que a experienciam sem a sentirem. Aliás, “não é uma coisa que esteja directamente relacionada”, diz Irina Ramilo, que acrescenta que “a mulher pode ficar muito estimulada e não conseguir atingir o orgasmo” ou a “ejaculação até acontece muito antes do orgasmo”. Joana Almeida faz um alerta: “A procura pelo orgasmo não deve tornar-se uma pressão”, sob pena de influenciar o prazer das pessoas ou de estas “acharem que não estão à altura”.

3. Há algo de errado comigo porque só consigo ter um orgasmo durante a masturbação

“Não, não há nada de errado”, afirma Joana Almeida. Por um lado, “a masturbação enquanto estimulação e actividade de prazer é saudável e mostra que uma pessoa está confortável consigo mesmo, conhece o seu corpo e tem uma história de aprendizagem de auto-estimulação”. Por outro lado, pode existir factores externos na equação: a estimulação não proporcionar prazer, o contexto da relação, o desconforto com o corpo e a imagem são alguns dos exemplos. A ginecologista Irina Ramilo refere também a questão psicológica da mulher, pois muitas vezes tem pensamentos que não são reais e acaba por entrar num “ciclo vicioso”. “A sexualidade da mulher depende da nossa cabeça e portanto quando nós começamos a ter determinado pensamento, depois é mais difícil”, afirma. 

4. Com a idade, deixa-se de conseguir atingir o orgasmo

A sexóloga Joana Almeida​ refere que, “com a idade e com os processos de envelhecimento, há alterações”, mas que estas “são possíveis de ultrapassar” — “depende de pessoa para pessoa o como” que lhe permitirá continuar a sentir satisfação e prazer. No entanto, é preciso também pesar a evolução das relações e percepções sociais. “Acho que pode ser falso, mas muitas vezes com a idade é preciso adaptação, é preciso reaprender a viver no nosso corpo.”

Irina Ramilo destaca a maior abertura da sociedade em relação à sexualidade dos mais velhos e refere que “não é porque [as mulheres] entraram na menopausa que não podem viver a sexualidade ou de modo melhor e diferente”. 

5. Nunca tive um orgasmo, tenho algum problema

“É preciso compreender caso a caso”, diz Joana Almeida. Se há quem não procure ser um “ser sexual”, há quem sinta esta questão “como problema” e, nesse caso, “é bom procurar ajuda para contextualizar”. A sexóloga refere, por exemplo, que a noite de núpcias pode ser uma “frustração” para quem nunca explorou a sexualidade. Já Irina Ramilo remata que, muitas vezes, o problema passa pelo “desconhecimento do próprio corpo”. 


Texto editado por Carla B. Ribeiro