Elaine Thompson continua a ser a mais rápida

A jamaicana voltou a arruinar a campanha da compatriota Fraser-Pryce para ser a primeira tricampeã olímpica dos 100m. E fê-lo com a segunda melhor marca de sempre.

Foto
Elaine Thompson-Herah, bicampeã olímpica dos 100m Reuters/HANNAH MCKAY

Já sabemos que estes são os primeiros Jogos Olímpicos sem Usain Bolt desde 2004 e esse é um vazio que ainda não está preenchido, mas a Jamaica não passou nada despercebida no segundo dia do atletismo, em Tóquio. Conseguiu nada menos do que uma “tripla” na final feminina dos 100m, algo que não era, de todo, inesperado, mas não necessariamente por esta ordem. Quem ficou com o título de mulher mais rápida do mundo voltou a ser Elaine Thompson-Herah, campeã em 2016, e Shelly-Ann Fraser-Pryce voltou a falhar na sua campanha de juntar mais uma medalha de ouro à colecção. A novidade foi Shericka Jackson, que ficou com o bronze.

Era um dado adquirido que esta ia ser uma final sem a melhor das norte-americanas, que seria uma séria candidata ao ouro — Sha’Carri Richardson não está em Tóquio porque foi suspensa por consumo de marijuana. E se ainda está por saber quais são os benefícios do consumo de marijuana para uma prova de velocidade curta, a verdade é que jovem norte-americana não estava no Japão para dar luta às três jamaicanas por uma das medalhas olímpicas. E também não esteve a nigeriana Blessing Okagbare, suspensa por suspeitas de uso de doping poucas horas antes desta final.

Sempre agendados para os primeiros dias do atletismo nos Jogos Olímpicos, os 100m são uma descarga intensa de adrenalida a que o público reage intensamente durante uma dezena de segundos. Mas já sabemos que em Tóquio não há espectadores e, apesar de a vertigem da velocidade estar sempre presente, não é a mesma coisa — e quão deprimente seria ver Usain Bolt a fazer os seus números habituais num estádio sem adeptos…

Contas a ajustar

Havia aqui contas com alguns anos a ajustar. Fraser-Pryce era a rainha com duas coroas da velocidade (campeã dos 100m em 2008 e 2012), mas Thompson-Herah roubou-lhe esse estatuto no Rio com muito descaramento — também ganhou os 200m. Seria um novo duelo entre jamaicanas, sem grande concorrência americana, e com a marfinense Marie Ta Lou a espreitar o pódio. 

Pouco mais de dez segundos depois, uma, duas, três jamaicanas, tal como acontecera em 2008. Thompson-Herah com mais um título olímpico e com um novo recorde dos Jogos (10,61s), que é a segunda melhor marca de sempre, apenas perdendo para os 10,49s de Florence Griffith-Joyner; Fraser-Pryce a falhar no objectivo de ser a primeira mulher tricampeã nos 100m; e Jackson, sobretudo uma especialista de velocidade prolongada e estafetas, a conquistar mais um pódio olímpico na sua carreira.

Thompson-Herah (não tinha este segundo apelido no Rio) já estava com o braço no ar a celebrar antes de cortar a meta e isso, diz, pode ter-lhe custado algum tempo, quem sabe um novo máximo mundial para ultrapassar a marca de Flo-Jo, alcançada há 33 anos. “Acho que podia ter ido mais depressa se não estivesse a celebrar. Queria mostrar que ainda tenho mais para dar e espero que um dia o possa mostrar”, resumiu a bicampeã olímpica.

A medalha de prata é que pouco satisfez Fraser-Pryce, que viajou para Tóquio claramente para ganhar: “Claro que me sinto desiludida. O objectivo de um atleta é sempre a vitória. Mas não aconteceu. Sinto-me feliz por ter vencido uma medalha nos meus quartos Jogos Olímpicos”, declarou, revelando ainda que, com 34 anos, estes serão os seus últimos Jogos Olímpicos. Ela que, antes de Tóquio, tinha feito uma interrupção na carreira para ser mãe.

Sem Semenya

Este foi um dia com muitas qualificações e com mais duas finais para além dos 100m femininos. Uma delas foi a dos 4x400m mistos, uma prova em estreia nos Jogos Olímpicos, em que houve algumas equipas que investiram mais do que outras. A Polónia, um país tradicionalmente forte em provas de estafetas, foi o primeiro campeão olímpico desta especialidade, deixando a República Domicana para segundo e os EUA para terceiro. 

A outra final foi a do disco masculino, com uma dupla sueca, Daniel Stahl e Simon Petterson, a ocupar os dois primeiros lugares, festejando depois a preceito — os atletas mantiveram-se no estádio quando já estava vazio, embrulhados em bandeiras suecas e a tirarem fotografias.

Uma das qualificações teve especial significado, a dos 800m femininos, que não terá a bicampeã de 2012 e 2016 Caster Semenya. A sul-africana está impedida de competir na sua especialidade se não concordar em tomar supressores de testosterona para que os seus níveis hormonais estejam de acordo com o que dizem os regulamentos da World Athletics. Semenya nunca aceitou a condição e ainda tentou qualificar-se nos 200m, mas falhou esse objectivo.