Otelo merecia o luto nacional

Manchar a memória da revolução é o caminho para atacar a democracia e a liberdade. Também por isso Otelo merecia o luto nacional: o país não tem vergonha da revolução nem dos seus heróis.

“A ele a pátria deve a liberdade e a democracia. E esta é dívida que nada, nem ninguém, tem o direito de recusar.” Foi com estas palavras que Ramalho Eanes resumiu o legado de Otelo Saraiva de Carvalho. A escolha desta frase para iniciar o artigo não é indiferente, foi Presidente com o apoio da direita num período quente depois da revolução de abril e adversário político de Otelo, com quem chocou várias vezes. Apesar do mar de divergências que os separava, há um sentido de Estado, a gratidão de quem conhece a importância do indivíduo na história e do seu papel insuperável, o conhecimento e o reconhecimento da história. Memória.

Eanes não expôs a opinião desmemoriado, esquecido das diferenças e discórdias, ignorando todo o percurso de vida de Otelo – afirmou a posição “apesar de todas as contradições e da autoria de desvios políticos perversos, de nefastas consequências”. Porque há momentos que são maiores do que a própria vida. E é esse dia, inteiro e limpo, o primeiro de uma nova vida, que devemos a Otelo Saraiva de Carvalho, o estratega da revolução de abril.

Otelo merecia o luto nacional. Não que isso saldasse a dívida que o país lhe tem, mas porque um país com memória não podia fazer de outra forma. Para que serve o luto nacional se não é usado quando morre a pessoa a quem devemos a liberdade e a democracia? É essa a incompreensão geral no país. O país está de luto mesmo que o Estado não o reconheça.

A vida de Otelo foi controversa, a sua morte não deixaria de o lembrar. Mas, entre as várias críticas que subitamente proliferaram, o principal crime pelo qual alguma direita o quer condenar é o de ter feito o 25 de abril. Assim, apoucado o seu criador, ficaria diminuída a criatura. É um processo em curso – a disputa sobre a história –, a procura da afirmação da ditadura light e da guerra colonial descafeinada para atacar o período democrático e reabilitar a direita que nunca se conformou com a revolução. É o revanchismo histórico que tem ganho força, a tribalização em curso da política e a construção de enormes trincheiras pela direita portuguesa. Ignorar este processo é deixar-lhe caminho aberto para a vitória.

Conscientemente ou não, quando António Costa decidiu não sugerir ao Presidente da República a realização de um período de luto nacional, fez uma escolha nesta luta sobre a memória do 25 de Abril e pela normalização do extremismo de direita. Marcelo Rebelo de Sousa nem teve de fazer um esforço para concordar com o primeiro-ministro, a sugestão poupava-lhe inúmeros trabalhos e até encaixa que nem uma luva na memória que tem. Felizmente, a opinião deles não é a do país, mas demonstra a impreparação para lidar com este ataque cerrado que a direita está a fazer à memória da revolução e do período democrático.

À medida que se aproximam as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, que essa data se agiganta no horizonte, são cada vez mais audíveis as vozes dos derrotados da revolução que procuram novo ajuste de contas. É uma guerra cultural em curso para resgatar a credibilidade perdida. A vozearia contra Otelo é apenas uma batalha dessa guerra, assistiremos a outras batalhas até à data da efeméride.

A tática é recorrente: passa por reconhecer excessos repartidos no dealbar da democracia, para depois atribuir o extremismo às figuras de esquerda – isso explica o luto nacional negado a Otelo mas reconhecido a Spínola, fugido do país em 75, organizador do golpe da “maioria silenciosa” e presidente da organização terrorista MDLP; legitimar os serviços à ditadura com honras de Estado e apoucar os serviços à revolução – Salgueiro Maia viu Cavaco Silva dar pensões póstumas a agentes da PIDE enquanto lhe negava a ele esse direito; glorificar a guerra colonial, com a completa omissão dos crimes de guerra, e rejeitar a violência que significou para os povos – veja-se as vergonhosas honras de Estado ao sanguinário Marcelino da Mata.

Quase 50 anos depois do 25 de Abril, há uma direita que pretende levar a memória da revolução para uma luta na lama, usar na vida real a tática das redes sociais e tornar tudo num enorme pântano. Manchar a memória da revolução é o caminho para atacar a democracia e a liberdade. Também por isso Otelo merecia o luto nacional: o país não tem vergonha da revolução nem dos seus heróis.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico