Quando os atletas de elite não aguentam mais: a fraqueza ou coragem de Simone Biles

Se Simone Biles tivesse fracturado um joelho ao aterrar de um dos seus espectaculares voos, ninguém questionaria a necessidade de interromper a sua participação nos Jogos Olímpicos. Poderá ter uma fractura, não física, mas emocional, que como qualquer fractura necessitará de estabilização e reabilitação.

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Reuters/LINDSEY WASSON

Num momento em que a atleta mais medalhada da história dos EUA em ginástica pondera não prosseguir com as provas para as quais se qualificou nos Jogos Olímpicos de Tóquio, percebemos que sem saúde mental não há desempenho desportivo. Assim o comprova a actual situação e as declarações de Simone Biles.

Os problemas de saúde mental descritos por Simone Biles são mais comuns do que imaginamos, sobretudo entre a elite dos atletas do desporto de alta competição, como também foi o caso de Michael Phelps na natação e Naomi Osaka no ténis. Situações como estas revelam como o nosso bem-estar emocional e saúde mental podem absolutamente potenciar ou comprometer o nosso desempenho a qualquer nível, seja cognitivo, social ou mesmo desportivo.

Os atletas de desporto de alta competição estão sujeitos a vários factores que agravam o risco para desenvolverem problemas de saúde mental. A pressão competitiva (sobretudo durante provas como os Jogos Olímpicos), a necessidade de atingir de forma consistente resultados de elevada dificuldade, a exposição mediática, os níveis de exigência e perfeccionismo (esperados pelo próprio atleta, pelos treinadores, por um país inteiro) que trazem consigo o medo de falhar ou decepcionar, o risco de lesões (que podem comprometer por vezes meses ou anos de desempenho desportivo) e uma curta carreira associada a alguma incerteza em relação ao futuro são apenas alguns exemplos daquilo que um atleta tem de gerir.

Da mesma forma que um elevado número de horas de treino intensivo pode trazer consequências físicas negativas como lesões ou overtraining, também o foco absoluto, a dedicação exclusiva ao desporto e a pressão dos momentos de competição podem trazer consequências emocionais negativas como a depressão, a ansiedade, o burnout ou perturbações do sono e do comportamento alimentar. Por vezes, a alegria e entusiasmo que acompanharam um atleta durante tantos anos de treino e competições, transformam-se numa ansiedade asfixiante, num puzzle difícil de resolver, que nos impede de estarmos no nosso melhor. Sobretudo quando as dificuldades não são técnicas ou facilmente observáveis e corrigíveis, mas sim invisíveis, como são frequentemente os problemas de saúde mental.

Muito se tem discutido sobre se a postura de Simone Biles é um exemplo de coragem ou fraqueza. Muitos analisam esta situação, simplesmente, como uma atleta de alto nível que decide desistir das provas desportivas mais importantes do mundo porque não se sente bem, mas talvez esta possa ser uma perspectiva algo superficial. Proponho aprofundarmos a relação entre saúde mental e desporto de alta competição, começando por clarificar que, naturalmente, só a própria Simone Biles saberá verdadeiramente o que está a sentir. Para um atleta de elite, falhar, errar ou não pontuar como habitualmente, sobretudo nos Jogos Olímpicos, pode representar algo mais complexo, intenso e difícil de gerir do que possamos imaginar.

Quando dedicamos grande parte da nossa vida a uma modalidade desportiva, moldando (e sacrificando) rotinas, relações e decisões em função do desempenho desportivo, vencer pode confirmar que tudo valeu a pena, mas não ganhar pode trazer sensações complexas de frustração, impotência, desânimo e perda de significado em viver. Um atleta de elite é um ser humano que se dedica inteiramente à sua modalidade desportiva. O seu desempenho desportivo está completamente imbuído no seu sentido de identidade. Como tal, resultados menos favoráveis podem fragilizar um atleta, sobretudo quando avaliam o seu valor através dos resultados que obtêm desportivamente.

Se Simone Biles tivesse fracturado um joelho ao aterrar de um dos seus espectaculares voos, ninguém questionaria a necessidade de interromper a sua participação nos Jogos Olímpicos. Mas, partindo das suas declarações, Simone poderá ter uma fractura, não física, mas emocional, que como qualquer fractura necessitará de estabilização e reabilitação. A posição de Simone Biles não é por isso de fraqueza ou fragilidade, mas sim de vulnerabilidade. E comunicarmos ou mostrarmo-nos vulneráveis requer força, a qual advém de uma posição de coragem.