Fast fashion ou digital fashion: qual o futuro da indústria da moda?

Ao passo que a fast fashion é cada vez mais questionada, a digital fashion poderá ser um caminho para a indústria da moda, já que pode ser facilmente implementada no digital e defende a sustentabilidade no setor.

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Uma em cada três mulheres considera uma peça de roupa “velha” após a usar entre uma e duas vezes Unsplash/Hannah Morgan

O tipo de material utilizado, a mão de obra que produz as peças e o impacte que tem no meio ambiente são alguns dos fatores que começam já a definir a tomada de decisão de muitos consumidores na hora de comprar uma peça de roupa. Isto tem vindo a pressionar a alteração de comportamento de grandes cadeias de moda ligadas à fast fashion, levando ao aparecimento de novas tendências, desde o lançamento de peças “conscious” e coleções orgânicas até à moda on demand, feita consoante as necessidades de cada consumidor.

Começamos por analisar a evolução da fast fashion. Nos últimos anos, a moda como a conhecemos e compramos diariamente tem sido altamente criticada, devido aos seus malefícios, desde o recurso à mão de obra infantil e a exploração de trabalhadores até ao impacte na poluição do ambiente. Como tal, à medida que o consumidor se torna mais informado e consciente, também o futuro da moda começa a mudar. Este movimento não é novo, mas começam agora a surgir novas estratégias (dignas de um episódio de Black Mirror), que poderão levar o sector a um novo nível, cada vez mais sustentável e tecnológico.

Falamos da digital fashion – termo ainda pouco conhecido ou debatido em Portugal, mas que começa a dar os seus primeiros passos além-fronteiras. A ideia é simples: substituir o tecido por píxeis. Por mais estranho que possa parecer, o conceito surge com base nos avatares que vemos nos jogos, onde selecionamos roupas para os vestir e fazemo-los semelhantes a nós e aos nossos gostos. Ou seja, a digital fashion consiste na representação visual de roupas construídas através da tecnologia assente no software 3D.

Segundo a Doha News, em 2019, o fenómeno já estava a surgir na Índia, com um vestido feito de píxeis a ser vendido por 9500 dólares (oito mil euros). A mesma notícia refere que uma em cada três mulheres considera uma peça de roupa “velha” após a usar entre uma e duas vezes, e um sexto dos jovens afirma não ter interesse em usar uma peça de roupa que já tenha sido partilhada nas redes sociais, pelo que a digital fashion permite a cada indivíduo ter peças de roupa únicas, sem contribuir para uma cadeia de fabrico que vá contra os seus princípios.

Segundo a revista britânica Keisei Magazine, a digital fashion poderá ser assim um caminho para a indústria da moda, já que pode ser facilmente implementada no digital e defende a sustentabilidade no setor, pelo que na próxima década está prevista a implementação e crescimento desta tendência a nível mundial. Exemplo disso são marcas de luxo como a Gucci ou a Taylor Stitch que já estão a adotar algumas componentes da digital fashion ao processo de venda e produção das suas peças – compra e utilização de peças através de realidade aumentada e encomenda de roupas digitais antes de serem produzidas.

Por outro lado, a adesão às poucas opções digitais ainda disponíveis têm tido uma ótima recetividade por parte dos consumidores, sendo que várias marcas, como a Tommy Hilfiger, já anunciaram o objetivo de criar um processo de design totalmente digital até o final do presente ano, enquanto fabricantes, como a Louis Vuitton, testam o modelo através do lançamento de coleções digitais temáticas.

Contudo, a dúvida instala-se: fast fashion ou digital fashion? Qual das duas ditará o futuro da moda?

A inviabilidade do modelo tradicional para a sustentabilidade do planeta, aliada a um consumidor cada vez mais consciente, fará com que sejam adotados novos comportamentos, mais sustentáveis a nível económico e ambiental. Posto isto, acredito que estas alternativas, assentes na personalização e individualização, irão ganhar cada vez mais espaço na indústria da moda. Ainda há um longo caminho a percorrer no que toca ao avanço destas tecnologias, mas, a longo prazo, a digital fashion pode vir a dominar o setor.


A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990