O fracasso dos TEIP?

Enquanto consultoras com uma larga experiência de trabalho com estas e outras escolas, noutros programas e noutros projetos, recusamos qualquer abordagem linear e algoritmizada do trabalho que se realiza em tais contextos escolares.

O alegado distanciamento entre as escolas TEIP e as escolas não-TEIP, do ponto de vista dos resultados escolares dos seus alunos, é o motivo que explica a publicação, neste jornal, em 23.07.2021, do artigo de Samuel Silva, intitulado “Escolas desfavorecidas falham objetivo de melhorar notas”, um trabalho jornalístico que se baseia nos resultados da tese de doutoramento de Hélder Ferraz e nos comentários deste investigador da Universidade do Porto.

Ainda que o referido distanciamento de resultados escolares tenha de ser objeto de confronto com os dados coletados noutros estudos que chegam a conclusões diferentes, importa reconhecer que a aceitação de uma tal premissa não permite concluir que as classificações dos alunos das escolas TEIP não têm vindo a melhorar. Para além de Hélder Ferraz não o afirmar, os estudos de Abrantes, Mauritti e Roldão (2011), do ISCTE, ou de Vitor Teodoro (2018), da NOVA.id.FCT, mostram, pelo contrário, que aqueles alunos ou têm vindo a obter melhores classificações ao longos dos anos ou, nalgumas disciplinas, a mantê-las, em todos os ciclos de escolaridade.

Por isso é que se estranha que Ferraz, no artigo em causa, defenda que os “dados objetivos” mostram que os resultados do programa TEIP “não são satisfatórios” ou que “não vislumbrámos um único caso inequívoco de insucesso”. Trata-se de uma leitura cuja plausibilidade se constrói em função do facto de, no seu estudo, ignorar quer a já referida melhoria dos resultados escolares dos TEIP, quer os dados positivos que dizem respeito ao abandono, ao absentismo e à indisciplina dos alunos, quer, ainda, alguns dos ganhos referentes à transição dos jovens para a vida ativa.

O universo TEIP é um universo cuja diversidade parece ser ignorada por Hélder Ferraz, nomeadamente quando afirma algo que não pode afirmar, porque se produz a partir de um estudo que envolveu, apenas, seis agrupamentos escolares, a de que a generalidade das escolas TEIP utiliza “um reportório relativamente limitado de estratégias de intervenção”.

Enquanto consultoras com uma larga experiência de trabalho com estas e outras escolas, noutros programas e noutros projetos, recusamos qualquer abordagem linear e algoritmizada do trabalho que se realiza em tais contextos escolares. Sabemos que há agrupamentos TEIP que poderão corresponder à descrição que Ferraz produz sobre eles, ainda que haja outros que, em alternativa, se constituem como referências nacionais de inovação organizacional, curricular e pedagógica, como é o caso, por exemplo, dos Agrupamentos de Cristêlo (Paredes) ou de Marinha Grande Poente.

Se uns e outros não poderão ser ignorados, interessa, igualmente, que não nos esqueçamos dos restantes TEIP, onde se têm vindo a construir e a aprender a construir respostas das quais, hoje, todos beneficiamos. É uma obra de gente anónima que já não é o que foi ontem e que está aquém do que poderá ser amanhã. É gente que, no entanto, nunca verá o seu trabalho reconhecido enquanto se afirmar, como verdades universais, ou que “não há uma relação entre o diagnóstico dos problemas da escola e da comunidade envolvente e o trabalho desenvolvido no âmbito do TEIP” ou, ainda, que “o envelhecimento da população docente” constitui um fator que “dificulta a adoção de metodologias de ensino-aprendizagem diferentes”. 

Em conclusão, este é o tipo debate educativo sobre os TEIP de que o país não necessita, dado que estamos no domínio das narrativas, mesmo que a coberto de uma tese de doutoramento, que se constroem mais sobre o signo das crenças do que das evidências.

Consultoras de Escolas TEIP’S da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto

As autoras escrevem segundo o novo acordo ortográfico​