É nosso dever, é nossa salvação

Perguntei-me se mais alguém ali teria perdido alguém para esta doença. Se iriam entregar o braço em homenagem, por respeito, com pressa, em rendição. O gesto. Não mexer o braço, levantar a manga. Parece pouco para ser heroísmo. De nós pede-se tão pouco agora, depois de se ter pedido tanto.

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Nelson Garrido

Era um pavilhão enorme. Todos eram jovens, eu era jovem. Eu sou jovem. Sentados lado a lado, em cadeiras brancas de plástico a 1,5 metros de distância. Uma voz anunciava o número da senha que se seguia. A minha era a número 12. Tudo estava ordenado. Pela primeira vez em muito tempo, tudo estava ordenado. O silêncio imperava. Como se estivéssemos na missa. A nossa oração era o número de senha e o nosso sacerdote a senhora rouca com o microfone a chamar os números:

“1!” Pai Nosso. Imaginei o coronel ou sargento ou almirante a coordenar tudo nos bastidores. A inebriação dos últimos tempos, depois da efervescência inicial de controlar casos, de aferir números e de interpretar gráficos nos quais nos tornámos especialistas de plantão, não me permitiu, injustamente, lembrar-me do seu posto nem do seu rosto. Mas imaginei-o, com a sua farda militar de camuflagem. Pensei que ele nunca devia ter equacionado que um dia iria ter por missão coordenar a vacinação de seres humanos pacíficos, mas não pacificados. Que a sua guerra seria contra um bicho invisível e contra a desinformação. Que teria de organizar burocracias, filas e senhas.

“2!” Graças a Deus. Pensei nos médicos, nos enfermeiros, nas suas olheiras quilométricas. Imaginei os cientistas, como sempre os imagino, quase cartoonescos, rodeados de fumos e de tubos de ensaio. Imaginei as horas e horas de esforço e dedicação. Imaginei os políticos, as suas reuniões e discussões. “3!” Corações ao alto. Lembrei-me das palmas. Tão distantes e esmorecidas agora quanto inflamadas ao início. E lembrei-me do início. Fechados, isolados, assustados. Pensei nos restaurantes encerrados, nos teatros vazios, na cultura insegura e sem amparo.

“4!” Agora e na hora da nossa morte. Vi o meu psicanalista que não chegou a tempo da vacina. Quão importante ele teria sido nestes tempos, até para me ajudar a processar a sua própria morte. Ainda tínhamos muito trabalho para fazer. “5!” Livrai-nos, senhor. Vi os posts dos antivacinas com teorias assustadoras e dos preocupados, com dúvidas mais ou menos justificadas. Vi as listas dos efeitos secundários. Vi a hesitação e a curiosidade. Ouvi perguntar: “Qual é hoje?”, como quem pergunta qual é o prato do dia. Senti a alegria infantil de ser Pfizer, por ser a mesma que os meus pais tomaram e lembrei-me outra vez do meu psicanalista, do que ele teria a dizer acerca disto.

“6!” Oremos, irmãos. Pensei nos tantos outros que não foram a tempo. Nas famílias que se destruíram. Perguntei-me se mais alguém ali teria perdido alguém para esta doença. Se iriam entregar o braço em homenagem, por respeito, com pressa, em rendição. O gesto. Não mexer o braço, levantar a manga. Parece pouco para ser heroísmo. De nós pede-se tão pouco agora, depois de se ter pedido tanto. “7!” É nosso dever, é nossa salvação. Olhei em volta. Seres humanos. Frágeis, bonitos. À espera. Senti companheirismo e orgulho. Senti que pairava no ar alguma coragem, ou, talvez, uma primeira dose de coragem, um pequeno vislumbre de coragem, porque sabemos que a coragem é proporcional ao medo e íamos com a nossa medida. “8!” Ele está no meio de nós. São tempos em que o medo espreita em todas as trincheiras. É hora de arregaçar a manga. Todos sentimos falta de alguma coisa.

“9!” Glória a vós. Alguns vão confiantes, outros resignados, outros inquietos. Alguns acreditam que vai mudar tudo, outros que não vai mudar nada. Outros, como eu, que já é qualquer coisa. Já é. É qualquer coisa que nos aproxima. Aproxima-nos uns dos outros. Aproxima-nos do fim disto. O colectivo emociona-me.

“10!” A vida do mundo que há-de vir. Reparei no olhar de outro jovem. É esquisito dizer outro jovem, como se de uma seita se tratasse, a seita da pulsante mocidade. Mas detectei no seu olhar um lampejo, uma cintilação tímida e, não importa se o era ou não, reconheci-a como sendo esperança. Sim, há esperança. Algures ali, ao virar da esquina, algures ali, no fundo do túnel, onde quer que a geografia do imaginário a projecte, depois da tempestade, depois da tormenta. Os abraços plenos, os beijos, os grupos, as festas, a dança. Os brindes. “11!” Venha a nós o vosso reino! Esperança, saudades, cansaço. Todos estamos fartos. Ninguém aguenta mais. Mais do que certificados, só queremos certificar-nos que tudo isto acabará. Lembrei-me do meu amigo da homeopatia que odeia as farmacêuticas e que se recusa a tomar a vacina. Do Brasil, da tragédia. Da Índia. Do mundo em pedaços.

 “12!” O Corpo de Cristo. A minha vez. A enfermeira sorriu. A agulha aproximou-se, não doeu. Já doeu tudo demais. A pele furou, o líquido entrou. Depressa me puseram um penso. Encaminhei-me para o recobro. Ide em paz, e que o senhor vos acompanhe. Que venha a segunda dose. E gelo. E talvez um Ben-u-ron​. Ámen