Jorge Fonseca carrega o peso de uma nação na esperança de uma medallha

Bicampeão mundial regressa na manhã de quinta-feira ao Nippon Budokan para lutar pela primeira medalha olímpica em Jogos Olímpicos.

Foto
Jorge Fonseca revalidou o título mundial em Budapeste EPA/Zsolt Szigetvary

Depois da leveza de Catarina Costa – a ameaçar a conquista de uma medalha de bronze –, das lágrimas de raiva de Telma Monteiro, da incredulidade de Anri Egutidze e do desalento de Joana Ramos (Bárbara Timo teve esta madrugada a primeira ronda em -70kg), chegou a vez do bicampeão mundial Jorge Fonseca (e de Patrícia Sampaio -78kg) subir ao tatami do mítico Nippon Budokan, onde há dois anos provou pela primeira vez o ouro dos grandes campeões e onde na manhã de quinta-feira espera escrever novo capítulo da história do judo português.

Agora, depois de superar a covid-19 e de confirmar nos Mundiais de Budapeste, em 2020, que a conquista de Tóquio, em 2019, não aconteceu por mero acaso, o judoca português entra directamente no lote de 16 finalistas (fruto do ranking mundial) para iniciar a caminhada que muitos esperam só ficar concluída com o ouro olímpico nos -100kg.

Os dois títulos mundiais consecutivos garantem-lhe, sem grande contestação, um lugar entre os favoritos e a possibilidade de corrigir a estreia no Rio 2016, onde caiu na segunda ronda… às mãos do checo Lukas Krapalek, que garantiria o título de campeão olímpico, no Brasil.

Uma experiência a recordar, para evitar armadilhas em que até os mais bem preparados acabam por cair quando menos se espera, como lembraria Jigoro Kano, grande mentor da modalidade que desenvolveu no século XIX.

No entanto, Jorge Fonseca sabe por experiência própria - e não precisa que ninguém lho recorde -, que nesta vida ninguém recebe absolutamente nada de mão beijada. Realidade que o judoca do Sporting descreve na perfeição num dos pensamentos que partilha nas redes sociais quando procura inspirar os seguidores: “Praticar como se nunca tivesse ganho” e “competir como se nunca tivesse perdido” é a receita para manter as defesas altas, o instinto apurado e o crucial equilíbrio da força mental, algo que nestes Jogos Olímpicos parece estar a fazer vítimas entre os intocáveis, como sugerem as dúvidas de Simone Biles, na ginástica artística, e da nadadora húngara Katinka Hosszu, a “dama de ferro" que parece afundar-se nas próprias emoções. 

A medalha de bronze no Europeu de Praga, em 2020, longe de poder ser vista como uma derrota, servirá, certamente, de alerta para quem rumou a Tóquio com a promessa de ensaiar mais uma das suas famosas danças, só para que o mundo perceba “quem manda” no tatami, como atirou já no aeroporto de Lisboa em jeito de provocação para quem o quisesse ouvir na Aldeia Olímpica.

Essa confiança que levou o judoca de 28 anos a superar adversidades capazes de abalarem até os mais decididos e corajosos numa caminhada aglutinadora de admiradores e crentes, feita de força, agilidade, técnica, criatividade e, sobretudo, de uma alegria contagiante e indispensável para elevar o judo nacional a patamares nunca antes alcançados, apesar do inestimável contributo de Telma Monteiro.

Olhado como um portento, uma verdadeira força da natureza, Jorge Fonseca não terá tarefa fácil, até porque à medida que se avolumam as eliminações, tanto no judo como nas demais modalidades, o peso de conquistar uma medalha (no Rio 2016 só o judo, por Telma Monteiro, subiu ao pódio) parece transferir-se para os ombros do king.

Ombros largos, com efeito, mas que Jorge Fonseca quer manter bem afastados do tatami, onde o aguarda uma luta entre demónios e a glória que persegue com a tenacidade que o levou a sagrar-se campeão do mundo há pouco mais de um mês. Título que lhe confere um estatuto ainda mais temível e que o judoca da Damaia não deixará de ostentar na hora de lançar os ataques que podem consagrá-lo, mesmo numa modalidade desvirtuada pelas novas regras, cada vez mais favoráveis às estratégias defensivas e ao cinismo e às penalizações que derrotaram Telma Monteiro.

Lições a que um aspirante à academia de Polícia estará, certamente, vigilante... apesar do estilo arrojado e até inevitável que faz vibrar os amantes desta arte com quase 60 anos de história em Jogos Olímpicos, desde a estreia em 1964, precisamente em Tóquio, no Nippon Budokan.