Yolanda Sequeira já faz muito com o mínimo dos mínimos. Quer fazer mais

Portuguesa chegou aos quartos-de-final na estreia olímpica do surf em Tóquio, mas faltou-lhe uma onda para chegar à luta pelas medalhas.

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Yolanda Sequeira chegou aos quartos-de-final na estreia olímpica do surf Reuters/LISI NIESNER

A previsão meteorológica para esta terça-feira em Tóquio dava nada menos que um tufão, mais uma para a pilha de coisas que podiam correr mal nestes Jogos Olímpicos. Ventos fortes e chuva intensa não dão muito jeito à esmagadora maioria das modalidades, mas há uma que agradece, o surf. Tanto que, em vez de as provas serem adiadas por falta de ondas, o calendário foi todo antecipado e concentrou-se num único dia quartos-de-final, meias-finais e final de homens e mulheres.

Este tufão que ia engolir Tóquio e tudo ao seu redor afinal não passou de uma tempestade tropical. A tenda do surf instalou-se na praia de areia negra de Tsurigasaki e instalou-se no programa olímpico para ficar, provavelmente, durante muito tempo. Houve espectáculo, emoção, novos campeões e uma portuguesa que foi protagonista no dia de encerramento do surf em Tóquio. Yolanda Sequeira, eliminada nos quartos-de-final, ficou com um diploma.

A surfista algarvia era uma das duas mulheres portuguesas na estreia do surf olímpico e foi a que chegara mais longe. Teresa Bonvalot tinha-se ficado pela ronda anterior, e era Sequeira que ia lutar pelas medalhas depois de ter batido a n.º 2 do ranking mundial, a francesa Johanne Defay. Tinha estado na praia durante a madrugada e o mar parecia-lhe bem.

Mas já não era o mesmo quando foi para a primeira bateria dos quartos-de-final, frente à sul-africana Bianca Buitendag. Nenhuma das duas recebeu grande coisa nas duas primeiras ondas. À terceira, a sul-africana teve um 6,00, a que somou 3,50 da segunda onda, enquanto a portuguesa tinha tido 3,93. Precisava de 5,58 para ganhar.

Nos últimos dez minutos da bateria, Yolanda Sequeira navegou na sua prancha de um lado para o outro, paciente. Tinha a prioridade e queria usá-la no momento em que podia cavalgar a onda certa, fazer manobras, recolher os pontos que precisava e seguir para as meias-finais. Esse momento nunca chegou e, em desespero, foi numa onda que não ia a lado nenhum. Foi bom, podia ter sido melhor, mas a portuguesa espera que conduza a outras coisas. Para deixar de contar os tostões.

Em Tóquio, faltou-lhe a onda certa. “De fora dava para ver umas boas ondas, mas estava muito difícil lá dentro. A maré estava muito vaza, as ondas assim que se formam rebentam completamente e a Bianca conseguiu apanhar uma onda que levantou mais parede e deu-lhe oportunidade de fazer mais do que uma manobra. Foi o que me faltou”, justificou a surfista portuguesa.

A falar aos jornalistas presentes em cima da prancha para esta não voar, a algarvia de 23 anos lançou de imediato a sua candidatura a Paris 2024, que vai ter o seu surf bem longe, no Taiti, a mais de 15 mil quilómetros de distância da capital francesa. Yolanda quer mais dos Jogos e acha que vai ter mais para dar daqui a três anos: “Sou uma rapariga muito competidora e vim para cá com o pensamento no ouro, não vim para cá fazer mais nada. O meu surf dá para chegar lá acima.”

O maior prémio que a portuguesa tira destes Jogos é a visibilidade que terá junto de potenciais patrocinadores que lhe permitam dar outra folga na sua carreira. A algarvia que cresceu entre as ilhas da ria Formosa é quase aquilo a que se pode chamar surfista profissional “low cost”, a fazer contas ao dinheiro que precisa para ir às provas no estrangeiro, para conseguir competir com as melhores no desporto que escolheu e em que é naturalmente talentosa.

Faltam-lhe patrocínios, sobra-lhe a generosidade da família, dos amigos e de desconhecidos para assegurar uma época no circuito que, no mínimo dos mínimos, custa 45 mil euros. Yolanda falou, por exemplo, de uma senhora que não conhecia e que lhe pagou dois bilhetes de avião para os EUA, para poder competir. Falou também de uma campanha de crowdfunding em que angariou 7500 euros. Falou do seu treinador inglês, John Tranter, como um membro da sua família, vivendo e treinando em Sines, ela que nasceu em Faro, filha de um pai português (Sequeira) e de uma mãe galesa – que é de onde vem o Hopkins, o nome que a identificou nos Jogos Olímpicos.

“Tive muitas dificuldades na minha vida, o meu treinador ajudou-me muito, é como a minha família, houve alturas em que foi difícil dinheiro para comer. Se alguma vez parasse de surfar, era porque não tinha dinheiro nenhum”, diz a campeã nacional que tem o objectivo (adiado pela covid) de chegar ao Championship Tour, o principal circuito feminino de surf. “Com a minha performance, posso ter mais oportunidades e relaxar.”