Otelo: herói de Abril ou vilão extremista?

A morte de Otelo Saraiva de Carvalho deveria ser uma oportunidade para repensar o papel de uma figura cinzenta da história do país: aqui ainda não faço juízos de valor sobre o papel que desempenhou na história, mas antes refiro que está longe de ser uma personagem consensual – devendo ser analisada como tal.

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Raquel Costa

A morte de Otelo Saraiva de Carvalho desencadeou as mais variadas reacções por parte dos seus apoiantes e detractores. Entre aqueles que defendem o seu papel na Revolução dos Cravos em Abril de 1974 até aos que apontam a acção terrorista das FP-25 e o seu papel de relevo neste grupo, poucos são os que apresentam uma posição que, realçando o seu papel em Abril, não deixa de apontar a sua vertente mais violenta como presumível líder das Forças Populares 25 de Abril.

A morte de Otelo Saraiva de Carvalho deveria ser uma oportunidade para repensar o papel de uma figura cinzenta da história do país: aqui ainda não faço juízos de valor sobre o papel que desempenhou na história, mas antes refiro que está longe de ser uma personagem consensual – devendo ser analisada como tal. É inegável o importante papel de Otelo no âmbito da Revolução de Abril, como principal estratega e ideólogo de uma Revolução que deveria ser apreciada por todos, independentemente dos excessos que se sucederam, como um passo importante para a democratização de um regime datado, autoritário e danoso para um grande conjunto da população durante mais de quatro décadas.

E é inegável também o papel de Otelo como figura de relevo nas FP-25 e na actividade terrorista e violenta do grupo durante a década de 1980 – confirmada, sucessivas vezes, pelo poder judicial. Para a nossa cultura democrática e para a capacidade de ver a História sem lentes que nos turvem a visão, é importante que se atribua a Otelo tudo aquilo pelo que é responsável – para que não se glorifique alguém que tem um papel mais profundo, e não necessariamente mais positivo, do que aquilo que pode ser visto em Abril e, talvez, com uma visão sobre a democracia que não era tão linear e objectiva.

Podem afirmar que este não é o momento certo para fazer tal análise e tal julgamento – compreendo que sim – mas penso que parte da nossa cultura democrática passa também por reconhecer o papel extremamente importante dos capitães de Abril e de todos aqueles que lutaram pela liberdade, mas sem aceitá-los de forma acrítica e que não reconheça o papel nefasto e impactante para a democracia numa época em que esta estava já estabilizada e instituída. Penso que Otelo será contado na História como deveria ser contado agora – como uma personagem importante para o 25 de Abril mas com uma presença nefasta nos anos seguintes.

À população portuguesa, não se pede, naturalmente, que tenha a mesma opinião que eu – mas que reflicta sobre o tema e que passe dos argumentos clássicos a argumentos mais profundos e densos sobre o tema. Pede-se um debate mais elevado e, sobretudo, uma maior reflexão sobre o papel que Otelo (e outros) desempenharam para a História do país. Pede-se uma ausência de uma glorificação cega e acrítica e uma ausência de uma demonização, que compreenda a vicissitude dos eventos e os impactos, positivos e negativos, das suas acções. Principalmente, que se defenda o 25 de Abril pelo seu propósito primeiro, mas que se respeitem as vítimas das FP-25. Ainda que a proximidade temporal dificulte o julgamento histórico, creio que teremos uma perspectiva isenta do papel de Otelo na história do país. Não hoje. Mas um dia.