Sofrido e histórico: andebol português ganha em Tóquio

Selecção de andebol triunfa sobre o Bahrein e deixa bem encaminhada a qualificação para os quartos-de-final nos Jogos Olímpicos.

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Rui Silva foi o melhor marcador da selecção portuguesa frente ao Bahrein Reuters/GONZALO FUENTES

Foi sofrimento durante 60 minutos seguidos, mas também foi histórico: a selecção portuguesa alcançou nesta segunda-feira a sua primeira vitória no torneio olímpico de andebol, triunfando sobre o Bahrein por 25-26. Foi um triunfo alcançado no último minuto e construído com as defesas de Gustavo Capdeville – efectuou 13 defesas, com uma eficácia de 43 por cento. 

Portugal não tinha grande margem de manobra nesta sua segunda aparição no torneio olímpico. A derrota com o Egipto reduziu a margem de erro da equipa de Paulo Jorge Pereira e uma vitória sobre o Bahrein era um imperativo. Só que a equipa asiática já tinha mostrado que não era o “saco de pancada” do grupo – fez suar a Suécia na primeira jornada e só perdeu por um golo.

Houve equilíbrio na primeira parte, com doses iguais de competência do Bahrein e erros portugueses (e três bolas ao poste). Humberto Gomes pouco segurava na baliza portuguesa, ao contrário de um dos Mohamed Ali do Bahrein que brilhava na baliza. Alimentados no ataque pelos golos de Ahmed e Alsayyad, os árabes chegaram à vantagem aos sete minutos (7-6) e duplicaram essa vantagem logo após uma exclusão de João Ferraz.

Portugal passou quase dez minutos sem marcar um golo, até que um livre de sete metros convertido por António Areia acabou com a seca de golos (9-7). E com Capdeville na baliza, Portugal conseguiu manter o marcador numa distância razoável, mas sempre muito em esforço e pouco discernimento, perante um Bahrein que, não sendo uma selecção brilhante, ia aproveitando bem o que o adversário lhe oferecia. A partir do banco, Paulo Jorge Pereira pedia paciência aos jogadores, mas era coisa que eles raramente tinham.

A perder por um ao intervalo (15-14), Portugal não começou muito melhor a segunda parte, com muitas falhas de concentração a custarem bolas de ataque – um exemplo maior foi uma posse de bola que Fábio Magalhães desperdiçou, atirando-a para um ponta-direita que não estava lá.

Com as suas múltiplas defesas, Capdeville foi mantendo Portugal no jogo e, no ataque, era Rui Silva a manter o marcador a funcionar. Aos 23’ da segunda parte, Portugal conseguiu o empate (24-24) e entrou para o último minuto empatado (25-25) e a jogar com menos um (exclusão de Salina).

Com o Bahrein no ataque, Fábio Magalhães conseguiu uma intercepção e lançou um contra-ataque concretizado por Portela que deixou Portugal em vantagem pela primeira vez na segunda parte (25-26). No ataque, a equipa asiática ganhou um livre de sete metros, com 12 segundos para jogar, mas o remate passou a rasar a trave e Portugal geriu com competência os segundos finais para a sua primeira vitória nos Jogos Olímpicos e que deixa o apuramento para os quartos-de-final bem encaminhado.

O jet-lag e o plano

Pensar na dimensão histórica desta vitória ficará para depois. A preocupação imediata de Paulo Jorge Pereira é que os jogadores sacudam os efeitos da diferença horária entre Portugal e o Japão. “Notou-se bem os efeitos do jet-lag e nós estamos a ter muita paciência com estes jogadores, é uma experiência nova para todos. Estamos a oito horas de distância e sei que para adquirir os níveis físicos normais é um dia por cada hora de jet-lag”, referiu o seleccionador nacional, que deu o exemplo de André Gomes como um dos mais afectados.

E essa foi uma das razões (não a única) para Portugal ter sentido tantas dificuldades neste segundo jogo no torneio olímpico. “Custou-nos imenso ganhar este jogo, o Bahrein tem um modelo de jogo muito complicado, com muita mobilidade, são mais baixos do que nós, mas nós estávamos preparados com soluções para isso. Não funcionou quase o jogo todo, só conseguimos fazer isso nos últimos dez minutos”, reforçou.

Também há um plano preparado, diz Paulo Jorge Pereira, para o jogo da próxima quarta-feira, frente à Suécia: “Tem outro tipo de argumentos, jogam em grandes equipas da Europa e são jogadores com outro requinte táctico e técnico individual fantástico, é uma abordagem diferente, temos uma coisa preparada e oxalá que funcione.”

O Bahrein tinha um Mohamed Ali na baliza, mas quem foi o maior no jogo foi Gustavo Capdeville, guarda-redes da selecção portuguesa que fez 13 defesas e que foi fundamental para o triunfo. “Já os outros jornalistas disseram isso e meteram-me num patamar de que eu não gosto. Sozinho não ia fazer nada”, disse o guardião do Benfica, nada surpreendido com a decisão ter sido num último minuto em que aconteceu tudo: “Também vi o último minuto com a Suécia. Fizeram mais ou menos o mesmo.”