Biden a ver como 20 anos de EUA no Afeganistão são varridos pelos taliban

Presidente dos EUA promete ao seu homólogo manter o apoio norte-americano e aprova 100 milhões de ajuda de emergência para a crise de refugiados. Governo afegão decreta recolher obrigatório.

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Manifestação de tradutores e intérpretes que trabalharam para os norte-americanos e agora temem pelas suas vidas Reuters/Stringer

O avanço dos taliban e o desagregar da autoridade do Governo afegão está a acontecer como muitos previram assim que os Estados Unidos anunciaram a retirada das suas tropas do país que invadiram em 2001 em resposta aos atentados de 11 de Setembro. Só a velocidade a que tudo se está a precipitar é que parece ter apanhados todos de surpresa incluindo os Estados Unidos.

A situação deteriorou-se a tal ponto que o sábado começou com o anúncio do Ministério do Interior de que passa a vigorar um recolher obrigatório nocturno em 31 das 34 províncias do Afeganistão, só Cabul, Panjshir e Nangarhar ficam de fora.

“Para travar a violência e limitar os movimentos dos taliban, impôs-se o recolher obrigatório nocturno em 31 províncias do país”, disse o ministério em comunicado, citado pelo canal 1TV News. O recolher obrigatório começa todas as noites às 22 horas e prolonga-se até às 4h.

Na sexta-feira, o Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, telefonou ao seu homólogo afegão, Ashraf Ghani, para assegurar a ajuda diplomática e humanitária de Washington, reservando uma verba de até 100 milhões de dólares para um fundo de emergência destinado a necessidades “inesperadas urgentes” em matéria de refugiados, disse a Casa Branca.

Biden também autorizou 200 milhões de dólares em serviços e artigos dos inventários das agências dos Estados Unidos para responder às mesmas necessidades.

A missão dos Estados Unidos no Afeganistão só termina formalmente a 31 de Agosto, mas o grosso das tropas norte-americanas já abandonou o país.

Durante o telefonema, Biden e Ghani “concordaram que a corrente ofensiva levada a cabo pelos taliban entra em directa contradição com a alegação do movimento de que apoiam uma solução negociada para o conflito”, diz o comunicado da Casa Branca.

Desde que Biden anunciou o plano de retirada em Abril que os taliban redobraram os seus esforços para conquistar mais território, lançando ofensivas militares em muitos distritos, cercando capitais provinciais e tomando o controlo de vários postos fronteiriços.

Embora a afirmação dos taliban de que controlam 85% do território seja manifestamente exagerada, a verdade é que as suas tropas já controlam metade dos distritos centrais do país, algo que um general norte-americano, citado pela Reuters, considerou extremamente preocupante.

Um estudo da agência alemã DPA, publicado na semana, mostrava que os taliban controlam 210 dos 400 distritos do país. O Governo só mantém o controlo sobre 110. O que deixa 80 actualmente em disputa.

União Europeia, Estados Unidos e NATO pediram aos taliban que “ponham termo à ofensiva” e ao Governo afegão que inicie negociações. “Reconhecemos que provavelmente levará tempo a chegar a um acordo político definitivo, incluindo a Constituição”, diz a declaração conjunta assinada também pela Alemanha, Itália, Noruega e Reino Unido, depois de uma reunião em Roma para discutir a evolução da situação no terreno.

A verba emergencial libertada por Biden inclui ainda a tramitação de visto de residência nos EUA para afegãos perseguidos. Afegãos formados ou a frequentar estabelecimentos de ensino, sobretudo mulheres e crianças, já fizeram ouvir a sua voz perante o avanço dos taliban, que durante o tempo em que lideraram o país proibiram as raparigas de frequentarem a escola.

Também as minorias étnicas ou sectárias temem pelo seu futuro, dado que a interpretação estrita do islamismo sunita adoptada pelos taliban põe em causa os seus direitos, liberdades e garantias. O primeiro grupo de afegãos retirados do país, junto com as suas famílias, cerca de 2500 pessoas, deverá chegar à base norte-americana de Fort Lee, na Virgínia, até ao final do mês, onde aguardarão o processamento final dos seus pedidos de visto.