Ben and Jerry’s anuncia que deixa de vender nos territórios palestinianos ocupados

Anúncio leva primeiro-ministro israelita, Naftali Bennet, a avisar a Unilever de “consequências graves” para a sua marca de gelados.

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Fábrica da Ben and Jerry's em Be'er Tuvia, em Israel RONEN ZVULUN/Reuetrs

A Ben and Jerry’s anunciou que vai deixar de vender gelados nos territórios palestinianos ocupados, dizendo que essa acção era “incompatível com os valores” da empresa. Os gelados deixarão de ser vendidos nos colonatos judaicos na Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, mas a empresa diz querer manter a sua fábrica em Israel e a sua distribuição no Estado hebraico – apenas não além do território internacionalmente reconhecido.

A acção levou a uma forte reacção do Estado hebraico, onde o Governo não vê distinção entre os colonatos em território ocupado além da Linha Verde (acordada em 1949 e também conhecida como pré-1967) e o território do Estado de Israel dentro dessa linha. Os colonatos judaicos são, no entanto, vistos como ilegais pela grande maioria dos países e especialistas em direito internacional.

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Yair Lapid, foi o primeiro a reagir, acusando a empresa de “se render ao anti-semitismo”. Lapid disse que iria abordar a questão em mais de 30 países que têm leis contra o movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), que defende um boicote generalizado a empresas, artistas, instituições académicas de todo o Estado de Israel pela sua acção nos territórios ocupados, e que o Estado judaico vê como uma ameaça existencial.

A acusação de anti-semitismo baseia-se num dos pressupostos da definição da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA, sigla em inglês), que num dos pontos diz ser anti-semita exigir a Israel algo que não é exigido a outros Estados, ou criticar o Estado hebraico por acções que outros também tomem (alguns académicos disputam esta ideia, notando que pode haver motivos para tratar Israel de forma diferente, por exemplo nos EUA, já que as contribuições de verbas podem levar a maior escrutínio de Israel do que de países que não recebem dinheiro americano).

O embaixador israelita em Washington, Gilad Erdan, deu conta do envio de uma carta a 35 governadores cujos estados têm leis contra o boicote a Israel.

O gabinete do primeiro-ministro, Naftali Bennet, anunciou esta terça-feira de manhã que este falou com o CEO da Unilever, empresa-mãe da Ben and Jerry’s, sobre a medida “anti-Israel”. “Do ponto de vista de Israel, esta medida tem consequências graves, legais e outras, e iremos agir com força contra qualquer medida de boicote contra civis”, declarou Bennett.

Aida Touma Sliman, do partido Lista [Árabe] Conjunta (o partido árabe que não está no Governo), classificou a decisão como “acertada e moral”, acrescentando que “os territórios ocupados não fazem parte de Israel” e que a acção é importante para pressionar o Governo do país a acabar a ocupação dos territórios ocupados na guerra dos Seis Dias, em 1967.

Esta não é, no entanto, uma acção feita com base nos pressupostos do movimento BDS, que defende o boicote a todo o Estado israelita enquanto houver ocupação, e não apenas nos territórios ocupados. O movimento aplaudiu o anúncio – “um passo decisivo para acabar com a cumplicidade da empresa na ocupação e violação de direitos dos palestinianos” – mas disse que não era ainda suficiente, pedindo que não haja quaisquer relações comerciais com Israel.

Várias acções tentaram já conseguir boicotes apenas aos colonatos e não a Israel, incluindo uma tentativa da União Europeia de ter indicação da proveniência de produtos, indicando se foram produzidos em Israel ou nos territórios ocupados. Israel reagiu dizendo que era o equivalente a ter uma estrela amarela nos produtos, evocando a estrela que os nazis alemães obrigaram os judeus a usar.

Israel trata ainda de modo diferente os colonatos da Cisjordânia, onde vivem cerca de 500 mil colonos, e os de Jerusalém Oriental, onde vivem 200 mil, alegando que Jerusalém “unificada” é a sua capital, enquanto os palestinianos reclamam a parte oriental da cidade para sua capital. As duas áreas são consideradas território ocupado pela comunidade internacional.

A Ben and Jerry’s foi fundada em 1978 por Ben Cohen e Jerry Greenfield, e tem tido uma série de posições em defesa de direitos LGBTQ ou contra alterações climáticas.