O ano em que Deus deixou de existir

Uma gazela correu desnorteada até perto do penedo onde o caçador branco tinha um joelho no chão e a arma apontada. O animal estacou, confuso, sem saber que direcção tomar, hesitação fatal. O estampido repercutiu-se com um eco através do vale e a gazela foi atingida mortalmente. O odor a sangue era forte e o corpo do pequeno animal sofria ainda os últimos estertores da vida que se escoava quando os batedores o arrastaram até aos pés do caçador branco. O atirador quis uma fotografia e sorriu para a máquina.

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HUMBERTO LOPES

Naquele dia em que acordou muito antes do amanhecer, inquieto pela jornada que se avizinhava, o viajante pensou que as promessas do mundo sempre se cumpriam de uma forma ou de outra e que cada coisa tinha o seu lugar no inalienável caminho para a felicidade. Acordou e levantou-se. Daí a meia hora estava a deixar a cidade num velho Land-Rover em direcção a uma montanha coberta de nevoeiro. O viajante era jovem, aquela era uma das suas primeiras viagens. Ao volante ia um caçador branco.

Quando saíram de casa, o dia não tinha ainda nascido, mas, à medida que iam subindo a montanha, despertavam os primeiros sinais da aurora. O jipe avançava aos sacões pela picada rasgada pela luz dos faróis. Pequenas rochas, como seixos rolados descobertos pela maré vaza, afloravam do solo arenoso. Nas bermas do caminho, árvores retorcidas estendiam os ramos sobre o tejadilho do veículo. Apesar do frio, o jovem viajante decidiu subir para a carroçaria. Mesmo com o trovejar do motor conseguia ouvir os pássaros nos seus cantos matinais. Cheirava a terra, às folhas das acácias fustigadas pela cabina do jipe, à humidade dos restos do cacimbo da noite.

A picada que atravessava aquele pedaço de montanha não era longa e em menos de uma hora estavam a descer para a savana. Os primeiros raios de sol ajudavam a desfazer a neblina e a certa altura tiveram que esperar que um elefante especado no meio da estrada acabasse de arrancar a escassa folhagem de uma acácia. O tempo da seca findava-se, mas era ainda pouca a ramagem capaz de alimentar com fartura bichos de tal tamanho.

Chegaram à roça quase três horas depois, atravessando uma planície de savana e voltando a trepar por uma picada acidentada com o mesmo caminho de pedras. Naquela área de penedias e vales criava-se gado e o espaço das pastagens era partilhado com uma comunidade de nativos. Era uma população de caçadores que se ocupava também com alguma agricultura em lavras espalhadas pelo vale. Com o tempo, os caçadores foram passando por aculturações e tinham-se habituado a consumir produtos que vinham do litoral e que a loja da roça tinha para troca ou venda.

A casa, um piso térreo de construção rudimentar, cimento e cobertura de zinco, era muito simples. Além da venda, havia mais três dependências: um armazém, um quarto e uma cozinha, onde eram tomadas as refeições. A construção era tosca, típica de pioneiros ou colonos, e a iluminação fazia-se com candeeiros a petróleo, cujo cheiro só desaparecia durante o dia. Naquela zona planáltica as manhãs eram límpidas, o ar fresco atalhado gentilmente por um sol cálido cuja memória os sentidos do jovem viajante conservariam pela vida fora. As noites enchiam-se de uma particular excitação: entravam pelo sono, sem cessar, ruídos que vinham do exterior, aves nocturnas, pios de mochos, choros e gargalhadas de hienas, uivos distantes e enigmáticos que chegavam do fundo dos vales.

Na primeira noite, houve uma batida. Veio da aldeia, iluminada por archotes, uma meia dúzia de homens. Em fila indiana, o caçador branco, o jovem viajante e os caçadores munidos de azagaias, arcos e flechas percorreram uns poucos de quilómetros sem que pudessem avistar mais do que os olhos acesos dos gatos selvagens e escutado o tropel dos bichos assustados.

No dia seguinte, logo que se fez dia, outra batida. Num estreito vale pincelado ainda por farrapos de neblina, um grupo de batedores nativos armados de arcos e flechas avançou aos gritos, forçando gazelas e antílopes na direcção de um penedo elevado, onde o caçador branco esperava empunhando uma espingarda de grosso calibre. Os urros que ecoavam no vale assemelhavam-se a um canto guerreiro entoado em uníssono. Os animais, tomados de pânico pelos gritos da turba que avançava em linha, punham-se em fuga para a armadilha. Uma gazela correu desnorteada até perto do penedo onde o caçador branco tinha um joelho no chão e a arma apontada. O animal estacou, confuso, sem saber que direcção tomar, hesitação fatal. O estampido repercutiu-se com um eco através do vale e a gazela foi atingida mortalmente. O odor a sangue era forte e o corpo do pequeno animal sofria ainda os últimos estertores da vida que se escoava quando os batedores o arrastaram até aos pés do caçador branco. O atirador quis uma fotografia e sorriu para a máquina.

No dia seguinte, durante a viagem de regresso, havia de novo neblinas sobre as montanhas, a savana era a mesma e mesmas as acácias com as mesmas flores despontando e anunciando o fim da estação seca. Mas o mundo já não era igual ao da véspera. O jovem viajante cogitava em silêncio que nem o mundo nem a viagem pareciam capazes de cumprir as promessas imaginadas. Isso tudo foi no ano em que ele disse à mesa do jantar que não lhe parecia que Deus existisse.