Taliban exigem retirada turca do aeroporto de Cabul

Insurgentes avisam Ancara que os militares da Turquia serão considerados combatentes inimigos se permanecerem no Afeganistão. Missão de segurança foi aprovada pelos Estados Unidos.

Foto
Um soldado afegão guarda um "checkpoint" nos arredores de Cabul MOHAMMAD ISMAIL/Reuters

Os taliban avisaram a Turquia que as tropas destacadas para a segurança no aeroporto de Cabul podem vir a ser consideradas como combatentes inimigos e exigiram ao Governo de Ancara a retirada dos seus soldados.

“Todos estão cientes de que todas as forças estrangeiras devem retirar da nossa querida pátria, em consonância com o acordo de Doha - referindo-se ao acordo de paz assinado em Fevereiro de 2020 com os Estados Unidos - uma decisão apoiada pelas Nações Unidas e pela comunidade internacional”, afirmou o grupo num comunicado emitido esta terça-feira.

O porta-voz dos taliban, Zabihullah Mujahid, lembrou que o ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Mevlut Cavusoglu, “esteve presente na cerimónia de assinatura” e criticou a decisão da Turquia ao anunciar que manterá tropas e estenderá a ocupação no país. Destacando os “laços históricos, culturais e religiosos com o povo turco”, Mujahid argumentou que “a extensão da ocupação vai gerar sentimentos de ressentimento e hostilidade no país para com as autoridades turcas e vai prejudicar os laços bilaterais.”

“A decisão da liderança turca é errada, uma violação de nossa soberania e integridade territorial e vai contra nossos interesses nacionais. O Emirado Islâmico do Afeganistão condena nos termos mais veementes esta decisão condenável, pois causará problemas entre as nações turca e afegã “, avisou o porta-voz dos taliban.

Mujahid pediu às autoridades turcas que “invertessem” a sua decisão e reiterou que a presença de tropas estrangeiras no país para além da data de retirada irá provocar uma resposta dos insurgentes contra os “invasores”.

"Pedimos ao povo turco muçulmano e aos seus astutos políticos que protestem contra esta decisão, uma vez que não beneficia a Turquia ou o Afeganistão, mas cria problemas entre as nações muçulmanas”, disse, antes de enfatizar que os taliban querem manter “relações positivas com todos os países.”

“Não interferimos nos assuntos dos outros nem permitimos que outros interfiram nos nossos. Lembramos às autoridades turcas que é melhor manter relações positivas, à luz dos princípios já aceites, do que tomar decisões erradas”, continuou, advertindo que se Ancara não “reconsiderar” a sua decisão, “o Emirado Islâmico e a nação afegã, em linha com o seu dever religioso, patriótico e de consciência, estarão contra os invasores, como o fizeram durante duas décadas de ocupação.”

O Governo do Afeganistão anunciou na semana passada que apoiará a missão planeada pela Turquia no aeroporto de Cabul após a retirada total das tropas norte-americanas do país e que tem a aprovação de Washington.

Por sua vez, o ex-presidente afegão Hamid Karzai revelou nesta terça-feira que as “negociações de paz “ entre o Governo e os taliban  serão retomadas “em breve”, exortando ambas as partes a “avançarem na direcção da paz”.

Karzao pediu aos taliban para pararem a ofensiva, considerando que os insurgentes “não ganham nada ao tomar distritos pela força”, ao mesmo tempo em que exigiu ao Governo que “não desperdice as oportunidades de paz”.

Os taliban declararam recentemente que controlam 85 por cento do território do Afeganistão, depois de uma série de ofensivas lançadas nas últimas semanas, apesar do processo de paz iniciado em Setembro com o Governo do país da Ásia Central.