A diferença entre um medicamento e um veneno é a dose

A perceção de excesso de peso, mais do que o peso real, é o principal fator de risco, pois muitos jovens, apesar de terem um peso saudável, sentem-se insatisfeitos com a sua aparência.

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A anorexia nervosa afeta, em média, 3 vezes mais mulheres do que homens Unsplash/Ludovica Dri

Diana gosta de dançar desde sempre. Começou no ballet com 3 anos, praticando também outros estilos de dança. Após a entrada na adolescência, vive o pesadelo de considerar-se feia e de não ter a estrutura de corpo ideal para vir a ser uma grande bailarina, como sempre sonhou. Acha que está gorda demais e que o seu peso não lhe permite fazer alguns movimentos quando dança.

Sara sempre foi uma ótima aluna na escola. A poucos meses de entrar na universidade, procura controlar o peso a todo o custo, o que transformou a sua vida num inferno. Começou por fazer algumas dietas no início da adolescência e no último ano a induzir o vómito, quando considerava ter ingerido alimentos em excesso. Sente-se mal quando toma refeições na presença de outras pessoas, percorrendo grandes distâncias para o evitar, impondo assim limitações à sua vida social. É como se ouvisse uma voz hostil dentro de si que critica quanto pesa e o que come, controlando os seus pensamentos, de forma permanente.

Como chegaram Diana e Sara a estes níveis de sofrimento? Estima-se que as causas sejam multifatoriais. As expetativas associadas às transformações físicas da adolescência são determinadas pelos padrões socioculturais. Nas culturas em que é atribuído um elevado significado, os adolescentes sentem maior ansiedade e tensão.

A maioria dos adolescentes das culturas ditas ocidentais refere que a aparência física constitui um dos problemas que mais os preocupam. É interessante ver que em Samoa a tensão é menor, porque as transformações físicas são pouco reconhecidas e é-lhes atribuído um reduzido significado social. Os estereótipos acerca da imagem do corpo e as normas culturais sobre a atração exercem uma grande influência na autoimagem e autoestima. Estes padrões de atração são transmitidos pela família, pelos colegas e pela sociedade em geral, muitas vezes de forma bastante subtil.

A Diana e a Sara estarão em pontos distintos de um contínuo de desajustamento provocado pela distorção na perceção do seu peso, que no limite poderá desembocar em anorexia nervosa ou bulimia, as duas formas mais conhecidas de perturbação do comportamento alimentar. A anorexia nervosa caracteriza-se por uma restrição alimentar exagerada, com recusa em manter um peso mínimo adequado, enquanto na bulimia há uma ingestão alimentar excessiva seguida de eliminação compensatória das calorias ingeridas, com manutenção do peso.

A anorexia nervosa afeta, em média, 3 vezes mais mulheres do que homens, sendo uma das perturbações psiquiátricas mais fatais. É frequente a omissão dos comportamentos alimentares, a sua minimização ou ainda a negação de sintomas. Vive-se numa espécie de limbo entre “um estar bem em estar mal e um estar mal em estar bem” que causa grande sofrimento. É ter a vida em pausa!

É como estar em ponto morto, a engordar lamentos mudos, aprisionado num corpo que se quer a todo o custo controlar, à espera do dia em que se alcança o peso perfeito para meter a primeira e poder voltar a circular na estrada da vida. Vai-se falecendo aos poucos, de morte morrida e a dor de quem acompanha de perto alguém que ama definhar assim, sentindo-se tantas vezes impotente na ajuda a prestar, poderá ser em alguns momentos avassaladora, quantas vezes assistindo à sua própria vida estagnar também.

A perceção de excesso de peso, mais do que o peso real, é o principal fator de risco, pois muitos jovens, apesar de terem um peso saudável, sentem-se insatisfeitos com a sua aparência, algo distante da imagem idealizada que têm do corpo perfeito. Tal leva-os a adotar formas de controlo do peso prejudiciais à saúde, que se traduzem em comportamentos com consequências físicas e psicológicas negativas: problemas de concentração, distúrbios de sono, irritabilidade, irregularidades menstruais, crescimento retardado, atraso na maturação sexual e défices nutricionais. Pode ainda afetar o bem-estar psicológico, aumentar a propensão para a depressão e reduzir a autoestima.

Sabemos que no nosso país a prevalência de problemas associados à obesidade é maior do que os problemas relacionados com baixo peso. Num caso como noutro são os excessos que importa evitar. Parafraseando Paracelso​, a diferença entre um medicamento e um veneno é a dose! É o equilíbrio que volta a ser importante assegurar!


A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990