Rui Costa, solução de recurso ou problema adicional?

Vice-presidente da direcção é o mais bem colocado para assumir funções desempenhadas por Vieira no clube.

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LUSA/SOTIRIS BARBAROUSIS

Não há momentos apropriados para que se instale uma crise, seja em que sector for, mas o terramoto que está a fazer estremecer o Benfica chegou numa altura particularmente delicada. Depois de uma época frustrante a todos os níveis, o clube vive dias decisivos no ataque ao mercado de transferências e na tentativa de reequilibrar a sua condição financeira. Dois pelouros que têm em Rui Costa e Domingos Soares Oliveira, respectivamente, os rostos mais visíveis. E são justamente estes dois homens que, em caso de impedimento de exercício de funções por parte de Luís Filipe Vieira, provavelmente terão de dar um passo em frente.

No caso de Rui Costa, na qualidade de primeiro vice-presidente da direcção, será o elemento mais directamente associado ao que dispõe o artigo 62.º dos estatutos do clube: “Compete ao presidente da direcção convocar e presidir às reuniões da direcção sendo, nas suas faltas e impedimentos, substituído pelo vice-presidente, designado nos termos da alínea a) do nº 3 do Artigo 61.º”.

Se a missão, por si só, já seria espinhosa, tendo em consideração o contexto desportivo, mais se torna se tivermos em conta que é precisamente Rui Costa que tem liderado o dossier das contratações e que poderá ter de delegá-lo, numa altura crucial do mercado de transferências, para assumir competências bem mais abrangentes. De resto, em matéria de negociações, Luís Filipe Vieira costuma ter um papel bastante activo e, também nesse particular, será necessário um esforço extra da parte do eventual líder interino.

O nome de Rui Costa — que nos últimos anos já foi apontado pelo próprio Vieira como seu natural sucessor na presidência —, porém, vem à baila num momento de especial escrutínio e nesta quinta-feira o dirigente viu-se forçado a enviar ao Conselho Fiscal do clube um esclarecimento sobre as suspeitas de negócios que envolvem o Benfica e uma sociedade da qual é detentor, a 10 Events.Lda.

De acordo com o jornal A Bola, Rui Costa terá explicado que “nunca exerceu qualquer actividade de agenciamento de jogadores” e rejeita uma “alegada parceria entre o Footlab [empresa de que o seu filho, Filipe Costa, é CEO] e o Benfica”. “Posso afirmar que nunca participou em qualquer negociação que envolvesse o Benfica, conforme pode ser demonstrado pelos contratos das atletas identificadas na carta”.

A carta a que se refere foi um pedido de esclarecimento dirigido ao Conselho Fiscal por um conjunto de sócios, encabeçado por Francisco Benitez, um dos candidatos às últimas eleições para a presidência do clube. Na missiva, divulgada pelo Correio da Manhã, é sugerida uma eventual incompatibilidade e desrespeito pelo artigo 44.º dos estatutos:  “Os membros dos órgãos sociais não podem, directa ou indirectamente, estabelecer com o clube e sociedades em que este tenha participação relevante, relações comerciais ou de prestação de serviços, ainda que por interposta pessoa (...)”, estipula.

É neste clima de pressão que Rui Costa poderá ser chamado a assumir novas responsabilidades, mas corre o risco de não ser o único. Isto porque, no caso de Luís Filipe Vieira não poder exercer funções na SAD, Domingos Soares Oliveira (director executivo do Benfica, vogal da SAD e administrador da Benfica SGPS) deverá ganhar mais protagonismo. E a verdade é que há já um dossier urgente para gerir, a emissão de um empréstimo obrigacionista de 35 milhões de euros, que decorre até dia 23.

Ora, os termos deste instrumento de financiamento correm o risco de ser alterados e os “encarnados” já solicitaram, inclusive, uma adenda à CMVM. Até porque, como prevêem no próprio prospecto: “Qualquer processo de natureza judicial, arbitral ou administrativa pendente ou que venha a ser instaurado contra o emitente (...) poderá implicar consequências adversas a vários níveis no desenvolvimento das suas actividades”.