Sabores de esperança

Demorei muitos dias a desfazer o nó da garganta que aquele abrir de portas da ambulância causou em mim, mas o tempo traz sempre as respostas, cedo ou tarde, organiza-nos o sentir e os sentidos. Só o tempo traz a calma a uma alma que desespera.

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Três rapazes jogam à bola em frente aos campos de petróleo queimados pelos combatentes do Estado islâmico em Qayyara, a sul de Mossul, a 23 de Novembro de 2016 Reuters/GORAN TOMASEVIC

Há momentos que nos transcendem. Há momentos que fazem tudo valer a pena e há momentos de uma intensidade emotiva que nos fazem querer desistir de simplesmente tudo. Contar uma história tem um poder infinito. E, como todos os superpoderes, tem de ser usado com bondade, porque senão o seu poder destrutivo é também imenso.

O poder de uma história tem de ter a representatividade de muitas histórias. Só assim a proporcionalidade da força de uma história faz sentido. E se todos nós somos uma história, e somos a história das histórias que interceptamos, temos de perceber em que ponto se encontra a nossa história num mar de histórias sem fim. Todos nós temos o poder de contar uma história. É importante que esse poder seja usado com representatividade e com bondade. Com a vontade de mostrar que o tecido humano é uno, contíguo e interconectado e que na insignificância de cada peça está também a singularidade de cada um de nós.

Neste dia, algo dentro de mim transcendeu-me. Algo aconteceu que abanou a minha estrutura. É estranho no meio de uma guerra ainda haver espaço para emoções novas, mas é bom sentir que o nosso coração ainda não congelou por completo.

Em Mossul, no Iraque, vinham-nos feridos por vagas. À medida que o exército iraquiano ia conseguindo libertar certas zonas da cidade, chegavam aos vivos, aos mortos e aos feridos, que escoavam como podiam para os hospitais à volta. Os militares iam para hospitais militares e os civis vinham para o nosso hospital. Os feridos eram resgatados por aqueles HumVee do exército blindados, até que os levavam para os TSP (Trauma Stabilization Points), onde alguns paramédicos executavam actos life-saving, faziam uma triagem por gravidade e enviavam em ambulâncias para os hospitais.

Depois de ter estado mesmo na cidade de Mossul, ainda sentia as coisas mais a peito. Tudo o que queríamos era que a guerra acabasse, mas fosse como fosse até esse fim tão esperado iria morrer muita gente, e nós teríamos muitos feridos para tratar. 

Nesse dia, recebemos mais uma leva de feridos. Em qualquer grande hospital do mundo seria um momento inusitado, ali, num hospital feito de tendas, era a rotina. Eu estava no bloco operatório, quando ouço o meu nome a ser chamado pelo rádio. Era uma médica sul-africana, que era a responsável pelo nosso serviço de urgência: “Gustavo, preciso da tua ajuda.”... “Ok, já vou.”

Para ela precisar de mim, é porque é alguma coisa bem grave, certamente... E eu já vou com aquele friozinho na barriga...

Quando lá chego, o primeiro impacto foi logo: “Merda!”... Uma criança de dois anos, inconsciente e com um tubo na traqueia, com alguém a assistir a ventilação... A criança tinha passado num desses TSP e vinha com um papel com uns escritos mal-amanhados. A única informação que tinha era “tiro na cabeça” e descreviam os medicamentos que usaram para anestesiar e entubar o menino. Até podia ser um tiro na cabeça, mas a criança não tinha mais do que uns arranhões no corpo, e no couro cabeludo eu não detectava qualquer ferida. A criança não apresentava qualquer outra lesão aparente, tinha os sinais vitais estáveis, apenas estava inconsciente e incapaz de respirar espontaneamente sem a ajuda de um Ambu (saco que enche os pulmões através de um tubo).

O que eu fui aprendendo é que neste tipo de situações temos de pôr tudo em causa. O que eu tenho é de esmiuçar os diagnósticos diferenciais que possam explicar uma criança inconsciente... pegando nesta pista do “tiro na cabeça” que não deixou qualquer marca na cabeça do miúdo. Terá sido de raspão? Terá a criança caído no meio de um tiroteio e, com isso, feito um traumatismo craniano? A verdade é que não sei até hoje o que se passou.

Num contexto de trauma, uma criança inconsciente que está sem sinais de hemorragia significativa, até prova em contrário, é um traumatismo craniano, e os sinais clínicos que eu tinha eram de extrema gravidade. Inconsciente e com uma respiração irregular... Dou algum tempo para que os medicamentos utilizados para o anestesiar deixem de fazer efeito, vou tentando organizar as minhas ideias, enquanto vou repetindo o exame neurológico, que drasticamente não me revela qualquer melhoria... Tenho literalmente um enorme dilema nas mãos. Seja o que for, o prognóstico aparenta ser péssimo... mas é um menino de dois anos e, embora sem família ao lado, é preciso ter muitas certezas para deixá-lo morrer.

Estamos no meio de uma guerra, onde morre gente por tudo e por nada... temos de saber bem que “batalhas” justificam a nossa luta e o nosso empenho. É óbvio que a criança precisa de uma TAC cerebral que nós não temos e que precisará, para ter chances de sobreviver, de cuidados intensivos pediátricos de qualidade e eventualmente de intervenções neurocirúrgicas... E nós não temos nada disso. A única hipótese é Arbil, a capital do Curdistão iraquiano, que é uma cidade bastante desenvolvida e que tem um hospital com quase todos os recursos, com o apoio de uma excelente ONG italiana que é a Emergency. Arbil fica a três horas de carro.

Eu vou falar com o meu chefe, explico-lhe o caso e digo-lhe: “Preciso de ir com este rapazinho até Arbil, está ventilado e por isso tenho de ser eu a ir com ele para que tenha hipótese de sobreviver...” E o meu chefe prontamente me responde: “Nem pensar. As regras de segurança são claras. Está fora de questão. Podes transferir a criança de ambulância, mas tem de ser alguém do staff iraquiano a ir com ele.”... Isto a mim mata-me de dilemas éticos. Ninguém do meu staff poderia estar minimamente qualificado para fazer um transporte de uma criança anestesiada e ventilada... mas há muito que aprendi que as regras de segurança não se questionam: há demasiada coisa em jogo. Por isso tenho de pensar em alternativas... ou deixar a criança morrer.

A minha leitura médica mais honesta faz-me acreditar que a criança vai morrer de qualquer das formas. Mas tomar essa decisão corrói-me por dentro, por mais que esteja no meio de uma guerra feroz...

Vou falar com um dos enfermeiros com que tenho mais confiança. Explico-lhe a situação. Ele, apesar de assustado com a responsabilidade e consciente de que não tem aptidão para o que lhe peço, aceita de imediato. Comove-me a prontidão para servir e ajudar. Saboreio o momento de profunda inspiração destes bravos com quem trabalhei. É um país de gente maravilhosa. Passo uma boa meia hora ao lado dele e da criança, a fazer uma formação ultra-intensiva sobre tudo o que me parece importante transmitir-lhe...

“Tens de ventilar 30 vezes por minuto, sensivelmente metade do Ambu (balão). Nunca podes parar de o ventilar em circunstância alguma.”

“Tens este e este medicamento, para dar x miligramas, a cada y minutos.”

“Certifica-te sempre de que o tubo não sai da traqueia...”

“Se alguma coisa correr mal, se a criança deixar de ter pulso, não vale a pena reanimar... deixa-a morrer. E aconteça o que acontecer, a culpa não é tua. A responsabilidade é minha; estamos a tentar algo muito difícil.”

Ele acenava-me com a cabeça, olhava-me de olhos arregalados, e traduzia as minhas notas em inglês para árabe, enquanto aos poucos se dava conta de que a responsabilidade da vida daquele menino pendia para as suas mãos durante as três horas seguintes e sem qualquer monitorização de sinais vitais... Tinha tudo para correr mal, mas íamos tentar dar o nosso melhor com o que tínhamos. Enquanto esperávamos a ambulância, revíamos o plano, eu dava-lhe o meu número de telefone para o caso de surgirem dúvidas, embora quase nunca houvesse rede na viagem, e tentava apaziguar-lhe a alma, que começava a vergar perante a responsabilidade e a impreparação para esta missão que parecia impossível.

Recebemos a notícia de que chegou a ambulância e dirijo-me com ele para lhe dar todo o meu apoio até ao último momento. Abre-se a porta traseira da ambulância e foi aí que o meu mundo desabou... Fui imerso numa série de imagens e sons que tomaram conta de mim. Gelei. Paralisei. A ambulância não vinha vazia. Já era noite e lá dentro vinham várias crianças, aos gritos, ensanguentadas, empoeiradas... Crianças mais velhas tentavam acalmar as mais novas, envoltas em trapos e ligaduras cheias de sangue... Mas os gritos que ouvi quando aquela porta se abriu eram a banda sonora da guerra, em directo, ao vivo e a cores. Sem filtros... como quem espreita uma outra dimensão por uma porta mágica, estava ali à minha frente a desumanidade e o terror em estado puro...

“O que é que eu estou aqui a fazer?” Apeteceu-me desistir de tudo. “Para que é que estou a tentar salvar uma criança com um traumatismo craniano grave, quando há ambulâncias cheias de crianças feridas, sem os pais, sem ninguém?”

Este momento tomou conta de mim e, enquanto via partir o enfermeiro dentro da ambulância cheia de crianças que retratavam o horror, eu fiquei hipnotizado a ver as sirenes a afastarem-se da minha visão, à medida que as lágrimas invadiam a minha cara cansada... Aquele frame foi muito mais forte do que eu... Continuei a trabalhar a noite toda, mas sem dizer uma palavra, como se o meu coração e o meu cérebro estivessem de costas voltadas... Xeque-mate na minha força.

“O que é que eu estou aqui a fazer?”

Soube ainda nessa madrugada no regresso do enfermeiro iraquiano que a viagem decorreu sem sobressaltos de maior... Entregou o menino de dois anos ao hospital em  Arbil no mesmo estado que me veio parar às mãos... Perdi-lhe o rasto, nunca mais soube o desfecho dessa criança. Mas nada estava capaz de tirar a nuvem negra da minha cabeça. Nessa noite, fui derrotado por uma porta que se abriu à minha frente.

Demorei muitos dias a desfazer o nó da garganta que aquele abrir de portas da ambulância causou em mim, mas o tempo traz sempre as respostas, cedo ou tarde, organiza-nos o sentir e os sentidos. Só o tempo traz a calma a uma alma que desespera. Quando confrontados com algo muito maior do que nós, quando agredidos por um momento que nos transcende, temos de olhar para dentro e perguntar à vida: “O que é que depende de mim?” Nunca ceder ao bloqueio causado pela dimensão do desafio e alimentarmo-nos sempre da infinidade de pequenas coisas que dependem de nós. Exige trabalho, mas é mais simples do que parece.

Esta é apenas a história de um menino, mas estima-se que, na batalha por Mossul durante nove meses, tenham morrido cerca de 40 mil civis. E cerca de 8,7 milhões de pessoas, 20% da população iraquiana, precisam de ajuda humanitária.

Eu escolhi ver a guerra do Iraque como um ser humano, e isso dói. Mas eu não queria estar na dor dos que fingem não olhar. As minhas dores trazem sabores. Sabores de esperança. Eu vi o pior pelos olhos dos melhores. E as belezas do mundo dependem muito mais do observador do que do objecto observado. Tudo tem beleza quando escolhido o olhar certo. E “o que depende de mim?” é sentir e alimentar os sabores de esperança de um povo iraquiano que me renovou a cada dia a vontade de fazer mais e melhor, a vontade de viver inspirado e ser melhor pessoa. Porque, numa crise, por mais gente que esteja a sofrer, se olharmos com atenção para os que estão a ajudar, vamos saborear o melhor que a vida tem.

Sabores de esperança.