Fartinhos disto tudo

Acredito piamente que o maior erro português ao nível da gestão da pandemia tem sido o desastre da sua comunicação, que, ano e meio depois do início do pesadelo, continua a ser miserável.

Não devia ter mais de metro e meio a primeira utente que entrou para ser testada na manhã de quarta-feira e que, ao cumprimentar-me com um muito pouco singelo “estou fartinha desta merda toda”, me arrancou do estado de sonolência típico da primeira hora da manhã. Olhei para ela com atenção à procura de uma pista sobre a sua idade, mas a cara miudinha quase totalmente coberta pela máscara cirúrgica não me permitiu chegar a grandes conclusões. E foi aí que olhei para a ficha de inscrição e vi que, na data de nascimento, constava um curioso 29-1o-1929, que me indicava que aquela senhora franzina e zangada, sentada na cadeira de testagem, tinha nascido na mesma terça-feira em que se iniciou a Grande Depressão. E se há coisa em que acredito é que a partir dos 90 anos se adquire uma espécie de imunidade diplomática que isenta as pessoas de filtrarem o que dizem para lá de um padrão mínimo.