Brasileiros regressam às ruas para pressionar Bolsonaro

Pela terceira vez em pouco mais de um mês, as cidades brasileiras vão voltar a ser palco de manifestações contra o Presidente, que atravessa o momento mais sensível do seu mandato.

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Oposição a Bolsonaro já saiu duas vezes às ruas das maiores cidades brasileiras duas vezes nas últimas semanas DIEGO VARA / Reuters

Uma das semanas mais negativas para o Presidente brasileiro Jair Bolsonaro é encerrada este sábado com mais uma jornada de manifestações antigovernamentais em todo o país, convocadas por vários partidos, sindicatos e organizações.

Não é por acaso que as manifestações originalmente marcadas para 24 de Julho foram antecipadas para sábado. A decisão foi tomada assim que foram conhecidos os primeiros indícios que apontavam para casos de corrupção a envolver o Ministério da Saúde na aquisição de vacinas contra a covid-19.

Os partidos de oposição, sobretudo à esquerda, intuem que este é o momento mais delicado desde que Bolsonaro chegou ao poder, em 2019, e esperam que a contestação popular possa forçar os actores políticos a avançarem para um processo de destituição. A lógica é idêntica, embora ideologicamente oposta, ao que aconteceu com Dilma Rousseff, cuja posição ficou francamente enfraquecida depois da onda de protestos em todo o Brasil, que acabaram por precipitar o seu impeachment, em 2016.

“A luta de massas é o elemento decisivo para que seja aberto o processo de impeachment do Bolsonaro”, afirmou o membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Paulo Rodrigues, quando foi anunciada a antecipação das manifestações. “Com o acto do dia 3 de Julho, queremos mandar um recado para o presidente da Câmara Arthur Lira, que está sustentando um governo sem condições políticas”, acrescentou. É nas mãos de Lira, um aliado do Presidente, que está a possibilidade de se abrir um dos mais de cem pedidos de impeachment apresentados contra Bolsonaro.

Esta semana foi apresentado um “superpedido” de impeachment por vários partidos de esquerda, em conjunto com alguns antigos apoiantes de Bolsonaro, que elenca mais de duas dezenas de crimes de responsabilidade imputados ao Presidente. Lira disse não pretender avançar para já com qualquer processo de destituição, pedindo para que se aguardem as conclusões da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga a actuação do Governo na gestão da pandemia.

Se as últimas manifestações contra Bolsonaro servirem de exemplo, espera-se uma participação maciça nos protestos deste sábado. Há acções marcadas para mais de 200 cidades. Esta será a primeira resposta das ruas às revelações de dois casos que levantam suspeitas de corrupção na compra de vacinas.

Um deles já valeu a abertura formal de um inquérito pela Procuradoria-Geral da República para averiguar se Bolsonaro incorreu no crime de prevaricação por não ter pedido a intervenção da Polícia Federal assim que soube de suspeitas de irregularidades na aquisição de vacinas Covaxin.

O espectro da corrupção paira sobre o Presidente brasileiro numa altura em que a sua popularidade já estava em acelerada erosão. Desde o final do ano passado que tem diminuído de forma acentuada o número de brasileiros que aprova a gestão de Bolsonaro, responsabilizando-o pela crise sanitária causada pela pandemia da covid-19.

Para piorar o quadro, o grande beneficiário é Lula da Silva, mais que provável adversário de Bolsonaro nas eleições presidenciais do próximo ano, e que as sondagens atribuem um forte favoritismo.