Ana Domingos e o estudo da obesidade

Perder peso é por vezes encarado como uma questão da força de vontade para ajustar o que se come à actividade que se tem. Mas há quem tenha outra perspectiva.

No último episódio de “Assim Fala a Ciência”, o podcast do PÚBLICO com o apoio da Fundação Francisco Manuel dos Santos e co-organizado por mim e por Carlos Fiolhais, com o precioso apoio da jornalista Aline Flor, conversei com Ana Domingos, uma neurocientista especializada na redução da obesidade através da identificação de causas independentes da ingestão alimentar.

Doutorada pela Rockefeller University, em Nova Iorque, fez também um pós-doutoramento nessa universidade, entre 2006 e 2013. Regressou depois a Portugal para trabalhar no Laboratório de Obesidade do Instituto Gulbenkian de Ciência, em Oeiras, tendo ganho nessa altura um prémio de investigação do Howard Hughes Medical Institute. Em 2018 mudou-se para o Reino Unido, para trabalhar no Departamento de Fisiologia, Anatomia e Genética da Universidade de Oxford, onde é professora associada e dirige um laboratório.

Perder peso é por vezes encarado como uma questão da força de vontade para ajustar o que se come à actividade que se tem. Mas há quem tenha outra perspectiva, designadamente que algumas pessoas são obesas porque a sua biologia é mais propensa a isso. Comecei por lhe perguntar qual era a sua perspectiva. Depois quis saber como foi o seu trabalho em Nova Iorque com Jeffrey Friedman, o investigador que descobriu a leptina, uma hormona que tem um papel muito relevante na obesidade.

Já como investigadora independente, Ana Domingos chegou à conclusão, com a sua equipa, de que existem neurónios no tecido adiposo. Será que a gordura também “pensa”? Também concluiu que existem células do sistema imunitário relacionadas com a obesidade. Quis saber de que modo este conhecimento nos poderá ajudar a combater a obesidade. E se será possível um tratamento farmacológico para a obesidade. Poderemos comer à vontade e tomar um comprimido para não ficarmos obesos? Ana Domingos mostrou-se optimista quanto a essa possibilidade, ressalvando que um medicamento para tratar a obesidade não deve ser usado para incentivar comportamentos alimentares inadequados. Perguntei também acerca do papel da genética na propensão para a obesidade.

Falámos ainda da farta desinformação que reina na área alimentar, por exemplo acerca das opções restritivas a que muitas pessoas aderem, evitando alimentos que contêm glúten ou lactose, sem que haja qualquer indicação médica para isso.

Para terminar, perguntei-lhe como é a sua vida na multissecular Universidade de Oxford, que hoje aparece em todos os rankings internacionais entre as melhores do mundo.

Chegámos com esta entrevista à última edição do “Assim Fala a Ciência”: ao longo de dez meses conversámos com investigadores portugueses espalhados pelo mundo, das mais variadas áreas, como a astrofísica, a biomedicina, a economia, a engenharia civil, a genética, as neurociências e a química, por vezes com um ângulo relacionado com a actual situação pandémica. Pela nossa parte, foi um prazer. Até à próxima!

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Este programa tem o apoio da Fundação Francisco Manuel dos Santos.