Ninguém aprende nada no meio de uma birra

Quando são os nossos filhos que recusam um “desculpe”, sentimo-nos envergonhados, como se a nossa parentalidade fosse posta em causa.

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@DESIGNER.SANDRAF

Querida Ana,

Tenho andado a meditar sobre o ato de “pedir desculpa”. Pedir desculpa significa assumir a responsabilidade pelo que fazemos e dizemos, e compreender que os nossos atos têm consequências nos outros. E isso é importante. Como é ter a humildade de reconhecer que errámos, colocando-nos nas mãos daqueles a quem causámos dano, dando-lhes o poder de aceitarem, ou não, as nossas desculpas.

E tudo isso é bom, mas preciso da tua ajuda para o passo seguinte: se reajo com irritação a crianças que não pedem desculpa, como se toda a gente lhes devesse tudo, e não tivessem culpa nunca de nada, também me arrepiam as que pedem desculpa por tudo e por nada ou as que foram obrigadas a transformar o “desculpa” na única forma de escapar as represálias — não daqueles a quem supostamente prejudicaram, mas às dos pais ou avós.

Espera: do teu insight profissional preciso igualmente que me expliques o que vai na cabeça dos que são mesmo incapazes de pronunciar a palavra – no meu tempo chamava-se “orgulho”, e fazia parte da função dos pais vergá-lo, mas tendo em conta os sarilhos em que se metem pela recusa de pronunciar uma única palavrinha suspeito que deve ser mais do que isso...


Querida Mãe,

É um tema que me fascina, especialmente desde que constato como entre os meus filhos uns dizem “Desculpa” em todas as oportunidades, e outros parecem alérgicos à palavra.

Os primeiros irritam-nos porque ninguém gosta de desculpas falsas ou forçadas, ou fora de propósito. Não servem para nada. Pior do que essas só mesmo as que disfarçam uma acusação como o “Desculpa... mas era impossível não me zangar contigo, porque foste insuportável” ou “Peço desculpa se ficaste ofendido”, que elimina o ingrediente principal de um pedido de desculpa: o reconhecimento de que magoámos alguém, mesmo que inadvertidamente.

Os segundos — os que se recusam a pedir desculpa — enervam-nos por razões diferentes. Porque: a) fomos lesados e um pedido desculpa sincero faz-nos sentir um bocadinho melhor; b) o nosso sentido de justiça exige que o “agressor” se redima perante a vítima.

E, quando são os nossos filhos que recusam um “desculpe”, sentimo-nos ainda envergonhados, como se a nossa parentalidade fosse posta em causa. Nessa situação, um “desculpe” – mesmo que não genuíno – seria a prova de que os “educámos bem”.

Espere, mãe, já vou à questão do porque é que algumas não são capazes de pronunciar a palavra. Mas, para isso, tenho de começar por explicar que as crianças só desenvolvem a capacidade de se pôr no lugar do outro, e de ver os acontecimentos pelos seus olhos, aí pelos 4/5 anos — na melhor das hipóteses, porque como todos sabemos há adultos que nunca lá chegaram. Ou seja, isto significa que a maior parte dos “desculpes” que ouvimos de crianças pequenas são oferecidos não para reconhecer um erro e reparar danos, mas porque aprendem que é o que lhes compete fazer, nomeadamente para evitar sofrer represálias. Não que não tenha vantagens, porque assim podem experimentar o prazer de ser perdoados.

Dito isto, o que explica que passada essa idade algumas tenham tanta dificuldade em pedir desculpa? Bem, depende.

A primeira hipótese é simples: não se sentem arrependidas. Nós, adultos, estamos mais habituados a “mentir”, e a perceber que embora não nos possamos sentir exatamente responsáveis pelo que aconteceu, não temos nada a perder em fechar o assunto com um pedido de desculpas, e ponto final. Temos uma maior capacidade de perceber que um “desculpe” pode aliviar a outra pessoa, e que podemos não estar arrependidos, mas também não a queríamos magoar, e por isso cedemos, não custa assim tanto. Mas as crianças ainda não têm todas essas competências cognitivas apuradas, e por isso podem não perceber porque é que alguém lhes pede para acatar com culpas que não sentem.

Mas mesmo os mais velhos, ou mais empáticos, podem não querer pedir desculpa. Tirando os psicopatas, a maioria de nós sente vergonha e/ou culpa quando percebe que errou, duas das emoções mais difíceis de digerir. E se para alguns a vergonha e a culpa são um motivador brutal para pedir desculpa, apaziguando-lhes a ansiedade, para outros funciona como um verdadeiro bloqueio. Podem tentar livrar-se dele, procurando um bode expiatório, ou podem ficar apenas presas numa nuvem negra que não as deixa pensar, sobretudo se têm um temperamento tímido. E, quanto mais os pais se zangam ou forçam, mais vergonha e culpa a criança sente e menos é capaz de o dizer.

Chegados a um ponto de assoberbamento (principalmente se estiverem em público), podem mesmo começar a bater ou a fugir, a chorar ou a provocar, escondendo a aflição num olhar de desafio. Tudo isto piora horrivelmente a vergonha dos pais que, naturalmente, ficam ainda mais atrapalhados e furiosos, o que não ajuda nada. Aí, é respirar fundo, perceber que não vem mal ao mundo de adiarmos o pedido de desculpa para mais tarde. Porque ninguém aprende nada no meio de uma birra.


No Birras de Mãe, uma avó/mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, começaram a escrever-se diariamente, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Mas, passado o confinamento, perceberam que não queriam perder este canal de comunicação, na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook e Instagram.

As autoras escrevem segundo o Acordo Ortográfico de 1990