Parte 4: Um passeio no campo

Às vezes sinto-me uma fraude. E outras vezes sinto-me tão incrível que vou escrevendo na minha cabeça o discurso que dirigirei à plateia no dia em que ganhar o Globo de Ouro de Melhor Mãe de Sempre.

Passam poucos minutos da meia-noite e mal consigo manter os olhos abertos. Acho que não existe um único músculo no meu corpo que não esteja a mandar-me para a cama, mas o meu cérebro, ao mesmo tempo que ignora a ordem, insiste em fazer-me ficar. Os meus últimos dias têm sido caóticos e sinto sempre que não dou atenção suficiente aos miúdos. Em relação a eles é como se vivesse cronicamente em défice, sabem? E depois abro as redes sociais e vejo famílias em autocaravanas, mães e filhos em parques temáticos, irmãos em brincadeiras divertidas e tudo o que me apetece é gritar de desespero. Porque as ideias do “tempo de qualidade” e do “criar memórias” me assombram, mas tudo o que tenho conseguido dar aos meus ultimamente é barriguinha cheia, banho, roupa lavada e uma história antes de dormir que, mesmo assim, não conto com a emoção devida.