A cicatriz

Puseste-me de braço ao peito e a minha mãe a ter de usar óculos escuros para eu não ver o que lhe tinhas feito à cara. Não te desculpo, mas aprendo a perdoar-te. Não te condeno, mas não te ilibo. As feridas que deixaram cicatriz não foram essas. A cicatriz fica em nós e nunca sai.

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Kristin Wilson/Unsplash

Sempre ouvi dizer que nos funerais só há coisas positivas a dizer acerca de quem morreu. No teu não foi assim. A tua ex-mulher, a última, abraçou a minha mãe, a penúltima, e disse-lhe: “Era um filho da puta.” As duas estavam lavadas em lágrimas.

Eras, sim, um grande filho da puta. Mas ninguém aguenta ser um filho da puta o tempo todo. E, apesar da máxima aristotélica de que somos o que fazemos na maioria do tempo, o que te confere esse lugar especial no trono, tu tinhas entrelinhas. Forravas-me os manuais escolares sem deixar bolhas de ar, mostraste-me os passeios do pinhal de Leiria, cortavas-me as unhas. Há nenúfares pacíficos mesmo nos pântanos mais profundos. Eu não sabia o que era bipolaridade e tu não querias dar-lhe um nome que não o da razão que detinhas acerca de tudo, sempre, inquestionavelmente.

Antes da bipolaridade, da violência doméstica, da depressão e do alcoolismo, antes de haver nomes para as coisas, eu conhecia-as sem as nomenclaturas, sabia bem ver a disfunção antes de saber funcionar. Já eras protagonista antes de eu saber o meu papel e já deixei, minto, estou a deixar, de pôr o que sobrou disso na tua conta.

Lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que te conheci. Eu tinha seis anos e a minha mãe apresentou-nos: “Madalena, é o tio Pedro.” Olhei-te nos olhos com o ódio que seria injusto se não o tivesses depois justificado e disse: “Olá, Pedro, estás bom?” A minha mãe, em pânico com a minha má-criação, apressou-se a corrigir-me: “É: Olá, tio Pedro, está bom?” Tu estavas desconfortável, mas a circunstância obrigou-te a aquiescer e mentiste, dizendo que não te importavas. Eras o sacerdote das boas maneiras, expressão que me ajudaste a abominar. Uma criança tratar um adulto que não conhecia por tu era impensável na tua cadeia de valores descalibrada. Tenho orgulho na criança que te desafiou naquele dia e várias vezes nos 12 anos subsequentes. Desde esse momento, estabelecemos essa relação disfuncional até no tratamento: eu tratava-te por tu e tu tratavas-me por você. Tratar-te por tu é significativo, mas não significa que eu não tivesse medo. Eu tinha muito medo. Tinha medo da noite e da sua imprevisibilidade. Tinha medo da tua fraqueza feita força, dos teus urros que vinham algures das profundezas do teu ser e irrompiam na madrugada, fazendo-me gelar. Sentia-me sozinha e aterrorizada com o que tinha de assistir e sabia muito bem que nada daquilo estava certo. Conheci a fuga e ambientei-me a ela de tal forma que se tornou a minha casa. Fugi para sobreviver, desde então. Aproximei-me dos livros que me acompanhavam nessas noites e que me fizeram perceber o quão comum aquilo, afinal, era, mesmo que não parecesse. Foram eles que me ajudaram a tentar compreender-te. E foram eles que me ajudaram a relativizar: “É só mais uma história.”

Eras essa figura meio ensandecida, sempre de chapéu, com as calças impecavelmente engomadas e a careca luzidia. Penteavas os poucos cabelos que tinhas para trás, de forma a ficarem ligeiramente enrolados. Eram brilhantes, como se tivessem sido sempre acabados de lavar. A tua gargalhada era a mais sonante, contrastando talvez só com o teu grito. Andavas depressa, como se estivesse sempre furibundo. E estavas. Guiavas ainda mais depressa o teu Alfa Romeu. Trazias a pasta imaculada numa mão e não carregavas mais nada, cabia sempre tudo.

Eras capaz do afecto e do cuidado. Tratavas-me por miúda. Disseste-me algumas vezes que gostavas de mim e eu sabia que era verdade, apesar de tudo. Gostavas de falar do meu futuro e de dar sugestões. Querias que fosse para o estrangeiro, que estudasse e que escrevesse. Deste-me a conhecer as pessoas mais importantes da minha vida e um destino de Verão mágico, onde desenterravas pedras que eu achava que eram preciosas. Construíste um baloiço em cima de um lago para baloiçarmos, um carrinho de rolamentos para brincarmos e penduraste uma árvore de Natal virada ao contrário no tecto para desafiares tudo. Tinhas tanta capacidade de construir sonhos como de os destruir. Nunca soube como calibrar o ódio com as doses de ternura que também advinham de ti, nos intervalos.

Tinhas as mãos enormes e fortes. Eras escultor. Ajudavas-me com os trabalhos manuais e achavas que eu tinha jeito para desenho. Quando acabava um, ia mostrar-to, orgulhosa. O melhor que já fiz até hoje foi um da tua cara, sempre te tirei bem a pinta. Eras meticuloso, desenhavas, pintavas, esculpias e conseguias fazer tudo sem criar aquilo a que chamavas o chavascal. O chavascal era onde dizias que eu me movia e por isso cresci nos antípodas dos teus padrões.

Ficavas horas no escritório, em frente ao computador, com os óculos rectangulares na ponta do nariz, a jogar bridge online e a fumar os teus L&M. Eu passava pelo escritório, cuja porta estava sempre aberta, e via a tua nuca careca reluzente, sentia o cheiro do cigarro e ouvia os cliques do rato a quebrarem o silêncio e ocasionalmente um ou outro pigarrear. Os jogos duravam horas, nas quais a casa parecia imersa num silêncio absoluto. Mas não era um silêncio apaziguador. Era alívio. Às vezes levantavas-te e fazias anunciar os teus movimentos com o arrastar ruidoso da cadeira no soalho de madeira e com os teus passos compridos e rápidos pelo corredor. Ias sempre a abrir, tão veloz que dava a impressão de que levantavas vento. Fazias questão de evidenciar o teu estado de contínua frustração com o mundo das mais variadas formas.

Uma vez fizeste uma exposição na Gulbenkian e uma das obras era um espelho gigante. A obra consistia nas pessoas verem o seu reflexo no espelho, como explicaste. Achei genial e lembro-me de pensar: “O que será que ele vê à frente do espelho?” Sabia que sofrias. Às vezes sentia por ti uma condescendência quase maternal e alguma impaciência, por verificar como te era impossível controlares-te. Aquela incapacidade era motivo de grande curiosidade da minha parte. Não percebia como era possível que o teu corpo saísse tão totalmente do controlo, ficando tão vermelho, com veias salientes a emergirem da testa, e saliva a formar-se nos cantos da boca. O tom de voz elevava-se até à última casa e, como se não fosse possível transmitir toda a raiva acumulada apenas com a tua estrutura corporal, servias-te de objectos variados, incluindo dos teus próprios quadros. Chegaste a lançá-los da janela para a rua.

Acabaste com o teu sofrimento. Fizeste-o tu, só podia ser assim, jamais deixarias que acabassem um trabalho por ti, mesmo esse que era, para ti, o penoso trabalho de viver. Foi um alívio tão grande quando desapareceste da nossa vida. Mas foi uma dor tão grande quando desapareceste da vida. Chorei muito. Assim são as ambivalências com as quais sempre estiveste tão familiarizado.

Tratavas-me as feridas com Betadine e delicadeza. Mas puseste-me de braço ao peito e a minha mãe a ter de usar óculos escuros para eu não ver o que lhe tinhas feito à cara. Não te desculpo, mas aprendo a perdoar-te. Não te condeno, mas não te ilibo. As feridas que deixaram cicatriz não foram essas. A cicatriz fica em nós e nunca sai. Cicatrizes todos temos, mas, isso aprendi contigo, dá para desenhar por cima. E o que importa é o desenho que fazemos em cima. Um dia destes, num reencontro, talvez te espere um abraço de uma miúda que cresceu e se resolveu com aquilo que, sem saberes fazer melhor, a tiveste de fazer passar. E, aí, gostava mesmo de te mostrar o meu desenho. (Mas da conta da psicanálise não te livras.)