Pré-covid: um quarto dos portugueses conseguiria pagar despesas por seis meses sem emprego

Portugal fica em sétimo lugar no indicador global de literacia financeira, entre 26 países participantes, e com resultados acima da média em vários indicadores.

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Eric Gaillard

Os conhecimentos dos portugueses em matéria financeira e de gestão de orçamentos familiares estão acima da média de um conjunto de 26 países participantes, no âmbito de um inquérito dinamizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Em 2020, na comparação internacional, Portugal ficou em sétimo lugar no indicador global de literacia financeira, "registando resultados acima da média neste indicador global e nos indicadores de atitudes e comportamentos financeiros”.

Relativamente aos resultados do inquérito realizado à população portuguesa, o terceiro feito pelo Conselho Nacional de Supervisores Financeiros (CNSF), estes mostram que “num período prévio à pandemia, os portugueses evidenciaram uma capacidade acima da média para enfrentar choques financeiros, previsíveis (por exemplo, reforma) ou imprevisíveis (por exemplo, desemprego)”, em resultado de “hábitos adequados de planeamento do orçamento familiar e da poupança” evidenciados por 1502 entrevistados. 

Dessa avaliação, realizada a cada cinco anos, através de entrevistas porta a porta, resulta que a larga maioria dos inquiridos (80,8%) demonstra preocupação com o planeamento e controlo do orçamento familiar, e 65% referem ter poupado no último ano, embora abaixo dos 68,3% de 2015. E que “cerca de um quarto dos entrevistados [ou seja 25%] afirma que, se perdesse a principal fonte de rendimento, conseguiria pagar as suas despesas por um período igual ou superior a seis meses (13,7% em 2015)”.

A maioria dos entrevistados (61%) afirma ter capacidade de pagar uma despesa inesperada de montante equivalente ao seu rendimento mensal sem ter de pedir dinheiro emprestado ou a ajuda de familiares ou amigos, e 62% referem ter rendimento suficiente para cobrir o seu custo de vida (proporções semelhantes às de 2015).

O inquérito realizado em Portugal, que integrou as questões comuns aos 26 países participantes, e também um conjunto de questões suplementares introduzidas pelo CNSF, revela ainda que “há pouca tendência para a realização de compras por impulso e para comportamentos associados a situações de incumprimento (a proporção de entrevistados que não pagou as suas contas ou pagou fora de tempo diminuiu de 10,9% em 2015, para 4,3%, em 2020)”.

Maior dinamismo na aplicação de poupanças 

Os portugueses revelam melhorias em relação à aplicação de poupanças, embora ainda se mantenha “uma grande inércia, patente nos montantes elevados ‘estacionados’ em contas à ordem” ou em depósitos a prazo. Cerca de um terço dos entrevistados continua a referir que aplicou dinheiro em depósitos a prazo, mas aumentou a proporção dos que investem em acções, obrigações ou fundos de investimento (9,4% em 2020 e 3,9% em 2015). E alguns entrevistados referem ainda o investimento em criptomoedas ou em ofertas de distribuição inicial de criptoactivos (Initial Coin Offerings ou ICO).

Numa outra vertente, “também subiu a proporção de entrevistados que demonstra confiança no planeamento da reforma (43,9% em 2020 e 36,9% em 2015), bem como dos que referem que irão financiar a sua reforma através de um plano de poupança privado ou de um fundo de pensões constituído pela empresa onde trabalham”.

Boa e má comparação internacional

No inquérito coordenado pela OCDE, que contou a participação de 26 países, o país surge em sétimo lugar no indicador global de literacia financeira, com 13,1 pontos, acima da média dos 26 países analisados (12,7 pontos) e da média dos 12 países da OCDE (13 pontos) que participaram neste exercício. Portugal ficou em décimo lugar em 2015, mas o universo de países não é o mesmo.

A posição conquistada ficou a dever-se aos bons resultados nos indicadores de atitudes financeiras e de comportamentos financeiros, ficando em quinto lugar em ambos os indicadores.

Na resiliência financeira, que mede a capacidade de os entrevistados fazerem face a choques financeiros, Portugal tem também resultados mais favoráveis do que a média dos países participantes na generalidade das questões consideradas.

Mas apresenta resultados menos favoráveis no indicador de conhecimentos financeiros, tendo ficado em 17.º lugar com valores abaixo da média dos países participantes na maioria das questões incluídas neste indicador.

O estudo também revela que no indicador de bem-estar financeiro, Portugal surge abaixo da média dos países participantes, ocupando a 16.ª posição.

Dos 1502 entrevistados, 53,5% são do sexo feminino e 59,4% fazem parte da população activa. Em termos etários, 11,2% são jovens entre 16 e 24 anos, cerca de metade (49,5%) tem idades entre os 40 e os 69 anos e 18,6% têm mais de 70 anos. No Norte foram realizadas 36% das entrevistas, em Lisboa 25,7% e no Centro do país 22%. Cerca de um terço (32,7%) dos entrevistados tem o 1.º ciclo do ensino básico completo e 18,7% têm pelo menos uma licenciatura.