Presidentes do Governo espanhol e da Catalunha acordam relançar mesa de diálogo em Setembro

Barcelona mantém a defesa de um referendo e de uma amnistia a todos os acusados do processo independentista. Madrid insiste na “normalização das relações institucionais”.

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Sánchez recebeu Aragonès no Palácio da Moncloa SERGIO PEREZ/Reuters

Depois de duas horas e meia de reunião, o presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, e o novo presidente da Catalunha, Pere Aragonès, concordaram em relançar a mesa de diálogo durante a terceira semana de Setembro, em Barcelona. Até lá, as equipas de ambos vão chegar a acordo para uma ordem de trabalhos e uma metodologia – duas das exigências que Aragonès, pressionado pelos sócios de governo a conseguir avanços concretos, levava para o encontro da Moncloa.

A vontade de diálogo partilhada não chega para mudar os factos: esta reunião, disse Aragonès, serviu “para constatar as posições longínquas” em relação a formas de “resolver o conflito”. Em simultâneo, “serviu também para reafirmar a existência deste conflito que deve resolver-se através do diálogo e da negociação e que, finalmente terá de contra com o aval da cidadania catalã”, descreveu o catalão.

Aragonès referia-se assim aos compromissos de Dezembro de 2018 que estiveram na base do único encontro de alto nível entre líderes das capitais desavindas, em Fevereiro de 2019, entre Sánchez e o então presidente da Generalitat, Quim Torra. Sem estes mínimos não se podia sequer falar em nova vida da mesa de diálogo, pensada como um instrumente de aproximação para curar as feridas do processo independentista e permitir encontrar um caminho com que catalães e os restantes espanhóis possam viver.

Em simultâneo, espera-se, voltará a ser possível discutir e fazer avançar questões bilaterais para lá da independência. Para tentar fugir às questões que dividem, esperava-se que Sánchez tentasse insistir em temas económicos, podendo até acenar com um novo pacto de financiamento para a região autonómica. “Ele não propôs um novo sistema de financiamento ou um novo Estatuto”, esclareceu Aragonès.

“A situação da pandemia ocupou parte da conversa, assim como a normalização das relações institucionais”, declarou, por seu turno, a ministra das Finanças e porta-voz do Governo, Maria Jesús Montero, escolhida por Madrid para fazer a avaliação em nome de Sánchez. “É preciso dar tempo para que as posições permitam uma aproximação e se possa virar a página”, insistiu, sempre que foi questionada sobre os pontos mais delicados.

“A solução tem de passar inevitavelmente pelo fim da repressão, caso contrário não estaríamos a negociar”, disse Aragonès. E fim “repressão” significa mais do que a liberdade dos nove ex-dirigentes catalães libertados há uma semana, depois de terem cumprido pena por “sedição” e “desvio de fundos” pela organização do referendo independentista de Novembro de 2017. Quer dizer o regresso a casa dos dirigentes que fugiram ou o fim de todas as acusações que envolvem independentistas, incluindo as anunciadas pelo Tribunal de Contas. Barcelona sabe exactamente as propostas que levará à mesa: “amnistia e autodeterminação”, esclareceu.

O tão aguardado primeiro encontro entre os dois presidentes acabou ensombrado pelo anúncio, horas antes, da sentença do Tribunal de Contas, que acusa 41 ex-dirigentes e funcionários de desvio de fundos para procurar apoios internacionais para a independência, reclamando de cada um quantias que vão das poucas dezenas de milhares de euros aos 3,6 milhões.

A oposição de direita antecipa que Sánchez vai ceder e fará desaparecer a sentença do Tribunal de Contas. Alguns veriam nisso mais uma prova de coragem (depois dos indultos), necessária para acabar com a judicialização do que deveria ter sido sempre um problema político. Já a oposição diz que se tratará de garantir mais dois anos de poder, confirmando o apoio da Esquerda Republicana da Catalunha ao Governo (o mesmo que permitiu abria a porta do diálogo e dos indultos).