“Passear em Sevilha? Tenho medo é de trabalhar em Lisboa”

Com poucos bilhetes disponíveis para adeptos portugueses, a polémica deslocação maciça de portugueses a Sevilha para assistir aos oitavos-de-final do Euro 2020 não se vai concretizar.

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Sevilha disponibilizou equipas de informação aos fãs (FIT) para ajudar os adeptos, como mostra imagem da polícia espanhola DR

O dia até começou com temperaturas amenas — 22 graus às 9h00 —, bem mais convidativas para um passeio do que os quase 40 graus que se fizeram sentir ao longo de toda a tarde de sábado, e mudou um pouco o cenário em Sevilha: na manhã deste domingo, entre as muitas pessoas que passeavam pelas zonas mais turísticas da capital andaluza, já se via um maior número de adeptos de futebol do que na véspera. Com algumas camisolas vermelhas a sobressaírem na multidão — mais da selecção belga do que da portuguesa —, o ambiente era, no entanto, menos colorido e ruidoso do que normalmente acontece numa cidade nos dias de jogo de um Europeu ou Mundial de futebol.

A temida e controversa deslocação maciça de portugueses a Sevilha, apelo de Ferro Rodrigues em Budapeste poucos minutos após a qualificação de Portugal para os oitavos-de-final, não se concretizou. Com o secretário de Estado Estado da Juventude e do Desporto ao seu lado de cachecol nos ombros, a segunda figura do Estado português disse esperar “que os portugueses” se deslocassem “de forma massiva para o Sul de Espanha” para “apoiar uma grande vitória de Portugal nos oitavos-de-final deste Campeonato da Europa.”

As declarações do presidente da Assembleia da República provocaram um caso, com explicações e reprovações de vários quadrantes políticos, e, no final, escudando-se na situação epidemiológica existente na Andaluzia, Marcelo Rebelo de Sousa deu um passo atrás na intenção de, neste domingo, ser um dos portugueses a estar no estádio Olímpico de la Cartuja. Alegando que tinha sido convidado pelo presidente, Ferro Rodrigues também não estará em Sevilha.

O apelo do presidente da Assembleia da República no momento de mais uma conquista da selecção portuguesa de futebol foi, no entanto, tão polémico quanto inócuo. Ao contrário do que aconteceu nos dois jogos que se realizaram neste Euro 2020 em Budapeste, onde o estádio Puskás teve sempre cerca de 60 mil espectadores nas bancadas, em Sevilha a lotação do estádio estará muito limitada, o que evitaria sempre qualquer grande deslocação de portugueses para assistirem à partida.

Com capacidade para 60 mil espectadores, o palco do Bélgica-Portugal terá, no máximo, 25% da lotação (são 15 mil lugares disponíveis) e para os adeptos lusos foram disponibilizados cerca de 2500 bilhetes — em Budapeste o número de portugueses nos jogos contra a Hungria e a França rondou sempre o dobro.

A escassez de bilhetes para portugueses fez-se notar durante o fim-de-semana em Sevilha. Se no sábado, no final da tarde, no meio da multidão que passeava nas margens do rio Guadalquivir ou nas imediações das principais atracções turísticas, eram meia dúzia os pequenos grupos em que se viam adereços de Portugal, na manhã deste domingo as camisolas, bandeiras e cachecóis com as cores portuguesas eram em maior número. Quase todos concentrados junto à Catedral de Sevilha e, no total, pouco mais do que uma centena.

Com a mulher, os três filhos, os sogros e a cadela Pandora, José Alpalhão saiu de Sacavém na manhã de sexta-feira “para evitar qualquer problema à saída de Lisboa”, e confessa que não percebe o porquê de “tanto zum-zum com este jogo em Sevilha”.

Funcionário público, Alpalhão diz que já tinha planeado viajar “com a família nesta altura para o Sul de Espanha de férias” e, por isso, esteve na passada quarta-feira, quando se disputou a última jornada do Grupo F, “a rezar para que Portugal fosse terceiro e jogasse em Sevilha”: “Foi um bónus. Juntei o útil ao agradável.”

Sem ver “nada de anormal nas ruas de Sevilha”, José Alpalhão confessa, em conversa com o PÚBLICO, até estar “admirado por ver” que “quase todos os espanhóis continuam a usar máscara na rua, mesmo não sendo obrigatório”, e reprova a decisão de Marcelo Rebelo de Sousa de não estar no jogo.

“Gostava era que o presidente não tivesse ido à Hungria, colocando-se ao lado do primeiro-ministro húngaro que é tudo menos um democrata. Os nossos políticos gostam de soundbites e atitudes populistas. Sevilha está pior do que Lisboa? Pelos números que eu vi, não está. Está melhor. Não tenho medo de passear com a família em Sevilha. Tenho medo é de ter de regressar a Lisboa para trabalhar.”

O receio de José Alpalhão é justificado pelos dados sobre a situação da pandemia na Europa conhecidos no final da semana. Embora a região da Andaluzia tenha sido colocada no “vermelho” pelo Centro Europeu de Controlo das Doenças, a taxa de incidência da covid-19 por 100 mil habitantes nos últimos 14 dias na província sevilhana é de 167 novos casos por 100 mil habitantes, valores bem abaixo do que se passa na capital portuguesa: 306 casos por 100 mil habitantes a 14 dias Lisboa beneficia, no entanto, da menor incidência no resto do país, uma vez que o mapa do centro europeu não desagrega as diferentes regiões portuguesas.

Visivelmente incomodado com o aumento da temperatura que já se fazia sentir ao final da manhã — à hora do almoço a barreira dos 30 graus já tinha sido ultrapassada - e com cara de quem teve “uma noite longa”, Stefan Verberckmoes procurava, mais perto da ilha de la Cartuja, onde vai ser disputado esta noite o jogo mais aguardado dos oitavos-de-final do Euro 2020, refrescar-se nas águas do Guadalquivir.

Natural de Antuérpia, Verberckmoes está em Sevilha desde quarta-feira “Comprei o bilhete de avião no dia da vitória contra a Dinamarca” —, e confessou ao PÚBLICO não ter tido conhecimento de qualquer polémica com as viagens para Sevilha: “Na Bélgica isso não foi sequer falado. Se estamos autorizados a ir para a praia em Marbella, por que razão não poderíamos ir a Sevilha ver um jogo de futebol?”

Quanto a esse jogo, Verberckmoes não tem dúvidas de que não será em Sevilha que os “diabos vermelhos” vão dizer adeus à prova. “Portugal perde 2-0, golos de Mertens e Alderweireld. Fico em Espanha até quarta-feira e sigo para Munique. Já tenho bilhete para os quartos-de-final, onde vamos ganhar à Itália. O que me tem tirado o sono é saber que, tal como há três anos [no Mundial 2018], teremos os franceses na meia-final.”