Em Barcelona, a primeira casa de Gaudí vira AirBnb (por uma noite)

A Casa Vicens, primeiro edifício residencial desenhado pelo arquitecto modernista catalão Antoni Gaudí, vai receber pela primeira vez hóspedes. Será no Outono, para duas pessoas e apenas por uma noite - as reservas serão feitas através da plataforma Airbnb e o preço da estadia é simbólico: 1€ (mais impostos e taxas).

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É uma espécie de retrato de um artista enquanto jovem em pedra, a primeira casa projectada por Antoni Gaudí, arquitecto-ícone do modernismo e uma dos cartões-de-visita de Barcelona. Contudo, à época - e estávamos na década de 1880 - o arquitecto só havia trabalhado em obras públicas. Um desconhecido, portanto, que Manuel Vicens Montaner decidiu contratar para o projecto de uma casa de Verão no que então era uma pequena vila nos arredores de Barcelona, Gràcia. Poderíamos dizer que o resto é história: Gaudí transformou-se num monstro da arquitectura e a Gràcia integrou-se em Barcelona, sendo um dos seus bairros mais típicos e, quase paradoxalmente, mais turísticos também. A Casa Vicens só abriu ao público em 2017 (manteve-se habitada durante 130 anos) e em Outubro vai receber os primeiros hóspedes via Airbnb.

É anunciado como uma experiência única (e exclusiva), de uma noite, para duas pessoas que terão a oportunidade de dormir na história - na casa Vicens já estão plasmados muitos dos motivos (obsessões?) que fariam dos projectos de Gaudí obras-primas da arquitectura mundial, a natureza à cabeça. Toda a casa estará acessível, mesmo aquelas partes que são posteriores ao projecto inicial e que neste momento funcionam como estruturas de apoio ao museu aqui instalado (e que incluem, entre outras uma livraria, um café e várias salas de exposições temporárias).

Aliás, os hóspedes terão direito a uma visita guiada especial pelo anfitrião da casa no Airbnb Emili, membro da equipa que transformou a casa histórica - e património mundial da Unesco desde 2005 (juntamente com a Casa Batlló, a Casa Milà, o Parque Güell, o Palácio Güell, a cripta da Colónia Güell, a fachada da Natividad e a cripta da Sagrada Família, sob a designação de “Obras de Antoni Gaudí) em casa-museu. “Estamos profundamente comprometidos com a preservação do património cultural de Gaudí e será um grande prazer partilhar os segredos do edifício e a sua rica história com os hóspedes”, afirma Emili.

A história da Casa Vicens é também a história de Gaudí - e até de Barcelona: na segunda metade do século XIX, a cidade, recentemente “libertada” dos espartilhos da sua muralha, começa a expandir-se. É nesta altura que o Eixample começa a ganhar forma - o mesmo Eixample que se tornaria numa espécie de laboratório para o movimento modernista (e percorrê-lo é sempre uma surpresa: não importa quantas vezes o façamos há sempre um edifício, um detalhe “novo”) e acabaria por fazer a ligação de Barcelona à vila de Gràcia.

Antoni Gaudí (1852-1926) emerge neste contexto de voragem de futuro com a sua “excepcional contribuição para a evolução da arquitectura e técnicas de construção de finais do século XIX”, lê-se no site da UNESCO. “São”, prossegue a justificação, “a expressão de um estilo ecléctico e extremamente pessoal ao qual o autor deu rédea solta não apenas na arquitectura, mas também na jardinagem, escultura e muitas outras artes decorativas”. Como em quase todos os edifícios emblemáticos de Gaudí, a fachada desta casa (construída em 1885), à face da rua, numa esquina é impossível de passar despercebida tal a explosão de cores e formas que a compõem.

Não tem a elegância estilizada de outras (nomeadamente as Batlló e a Milá, também conhecida como La Pedrera - há um bilhete colectivo para estes três edifícios), é como que um delírio de referências, as mais óbvia ao estilo neomudéjar. O interior é (ainda) diverso, com influências neoclássicas de naturalistas abundantes (os tectos revestidos de calêndulas de cerâmica amarela são impressionantes).

A casa original tem dimensões “modestas” e foi preservada (e recuperada - pertence agora ao MoraBanc) na sua total integridade (a ampliação feita em 1925, que teve aprovação do próprio Gaudí, mantém-se para apoio ao museu, e as duas outras intervenções na casa foram demolidas) - “Estamos encantados por dar aos hóspedes a oportunidade de conhecer esta casa exactamente como a desenhou Gaudí: como um oásis para passar o verão em Barcelona”, sublinha Emili.

Assim, os visitantes que por uma noite serão residentes da casa, poderão desfrutar do piso principal da casa, onde se situa a sala de fumo, que se abre como um oásis oriental sob um tecto, de gesso, que é um mar colorido de palmeiras e tâmaras e entre paredes cobertas de azulejos de papel marché num policromado de verdes, azuis e dourados, e a sala de jantar, a divisão mais intensamente decorada, que constitui ela própria uma obra de arte, e onde se preserva o mobiliário de madeira desenhado por Gaudí, assim como os 32 quadros de Francesc Torrescassana da colecção da família original (o casa viria a ser vendida a Antonio Jover, um cirurgião de Havana, em 1899, que aqui passou a residir a partir de 1924 e cuja família manteve a propriedade da casa até 2014), entre motivos vegetalistas que invadem tectos, paredes e lareira em azulejos de cerâmica. E é nesta sala que será servido aos hóspedes um jantar “estrela Michelin” criado pela Escola de Hotelaria Hofmann, a que se seguirá uma bebida na sala de fumo.

No primeiro andar ficam os espaços íntimos da casa - dois quartos, uma sala de estar (com uma cúpula dourada falsa coberta por um trompe l’oleil com pássaros a voar e trepadeiras a simular o exterior) e uma casa de banho. É no quarto principal (com terraço e vista sobre o jardim das traseiras) que ficarão alojados os hóspedes, novamente, como se estivessem entre a natureza: nos tectos, os motivos são as vinhas, nas paredes, juncos e samambaias. No exterior, será servido o pequeno-almoço (prometem-se os melhores croissants de Barcelona), no jardim que foi recriado como Gaudí o concebeu, inspirando-se na flora e fauna mediterrânicas (palmeiras, magnólias, rosas, trepadeiras), ainda que o seu espaço tenha encolhido ao longo dos anos.

As reservas para esta estadia na Casa Vicens (a acontecer no próximo Outono) abrem às 15h dos dia 12 de Julho - a Airbnb avisa que esta oportunidade, ainda que única, “não é um concurso”: “será escolhida a primeira solicitação de reserva que seja recebida”. E que “cumpra com os requisitos” - a saber: “aqueles que pretendam hospedar-se deverão viver actualmente na mesma casa para minimizar risco de contágio” (da Covid-19). Durante a estadia (preço: 1€ mais impostos e taxas), as portas da casa-museu vão estar fechadas ao público. Todos os detalhes podem ser consultados em airbnb.com/gaudi.