Lisboa dá passo atrás: comércio volta a encerrar mais cedo; entrar e sair da AML só com teste ou certificado

Depois de duas avaliações consecutivas no laranja, a capital passou para o vermelho. O recuo já era esperado depois de aumentos consecutivos nas últimas semanas na taxa de incidência de novos casos acumulada a 14 dias.

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Nuno Ferreira Santos

Lisboa vai dar um passo atrás no desconfinamento, confirmou esta quinta-feira o Governo após o Conselho de Ministros. O recuo já era esperado depois de aumentos consecutivos nas últimas semanas na taxa de incidência de novos casos acumulada a 14 dias.

Para já, a grande diferença é nos horários da restauração e comércio. Os restaurantes, cafés e pastelarias podem funcionar até às 22h30 durante a semana e até às 15h30 ao fim-de-semana e feriados. E haverá alteração na lotação permitida: no interior não poderão estar mais de quatro pessoas por mesa e no exterior o máximo permitido serão seis. O comércio a retalho alimentar tem de encerrar às 21h durante a semana e até às 19h ao fim-de-semana e feriados e o comércio não-alimentar pode funcionar até às 21h durante a semana e até às 15h30 ao fim-de-semana e feriados. O teletrabalho, sempre que as funções o permitam, mantém-se como obrigatório.

Será proibido entrar e sair da Área Metropolitana de Lisboa (AML) durante o fim-de-semana, com excepção a pessoas que apresentem teste negativo (PCR nas últimas 72 horas ou rápido de antigénio feito nas últimas 48 horas) ou certificado verde digital. Os autotestes não são válidos para esta situação. As crianças até aos 12 anos não precisam de fazer teste para entrar ou sair da AML.  Os horários desta restrição são os mesmos da semana passada - a partir das 15h de sexta-feira até às 06h de segunda-feira.

Neste patamar de contingência estão também os concelhos de Albufeira, que recua, e Sesimbra, que já tinha recuado. As medidas mais restritivas são para aplicar já a partir deste fim-de-semana. Mas a ministra da Presidência deixou um aviso: se a situação se mantiver igual, mais 16 concelhos estarão nesta situação daqui a uma semana, “principalmente concelhos da zona da Área Metropolitana de Lisboa”. 

Desde o início de Maio que os casos de covid-19 começaram a subir e tendo em conta as palavras da ministra da Saúde na última quarta-feira, ainda não há sinais de que a situação possa estar a estabilizar. “Os números neste momento levam a sugerir que a situação de Lisboa ainda não esteja ultrapassada”, disse Marta Temido, fazendo adivinhar a aplicação de medidas mais restritivas para o concelho, à semelhança do que já foi aplicado noutros pontos do país.

A capital do país entrou em situação de alerta, por ter uma taxa de incidência cumulativa a 14 dias de mais de 120 novos casos por 100 mil habitantes, a 27 de Maio Lisboa e depois de duas avaliações consecutivas no laranja, a capital passou para o vermelho. No último relatório da Direcção-geral da Saúde com dados por concelhos (18 de Junho), Lisboa já apresentava uma incidência de 303 casos por 100 mil habitantes. Segundo as contas do investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa Carlos Antunes, citado pelo jornal Inevitável, Lisboa deverá chegar aos 480 casos esta semana.

Questionada na conferência do Conselho de Ministros, a ministra de Estado e da Presidência, referiu que a evolução da pandemia na Área Metropolitana de Lisboa é “multifactorial”, estando relacionada com “mais entradas e saídas de pessoas” de vários países e uma “grande densidade populacional”.
“Estes factores existem e antecipávamos — e agora temos dados que o comprovam — que a presença da variante Delta seria alta na Área Metropolitana de Lisboa e, por isso, precisamos de agir em conformidade”, afirmou.

Reforço nos inquéritos epidemiológicos

Durante a semana o presidente da Câmara Municipal de Lisboa foi questionado sobre o possível recuo no desconfinamento. Em entrevista ao PÚBLICO e à Rádio Renascença, Fernando Medina admitiu que o concelho está “numa fase ascendente da incidência”. “Não estamos ainda sequer numa fase de estabilização, menos ainda numa fase de recuo”, afirmou, defendendo uma revisão da matriz de risco, que se baseia no risco de transmissão do vírus e na taxa de incidência.

A variante Delta, que já representa mais de 70% dos novos casos identificados na região de Lisboa e Vale do Tejo (e no concelho de Lisboa pode representar uma percentagem ainda maior), é também mais transmissível que a variante Alfa (britânica), que era a dominante no país. Esta preocupação levou à indicação que se acelerasse a vacinação em Lisboa e Vale do Tejo. Por exemplo, Lisboa abriu esta semana um novo centro de vacinação. Há também o alerta dos especialistas para que se aumente a testagem e se reforcem equipas para controlo das cadeias de transmissão.

Em resposta ao PÚBLICO, a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) diz ter neste momento, entre pessoas a tempo inteiro e tempo parcial, “254 profissionais a realizar inquéritos epidemiológicos”. Para além dos militares, existem médicos de saúde pública, internos de saúde pública, dentistas, enfermeiros e técnicos de saúde ambiental a desempenhar estas funções. E haverá novo reforço. “Até ao final deste mês de Junho está previsto um reforço de mais 15 profissionais, perfazendo, assim, um total de 269 profissionais”, afirmou a ARSLVT.

“Todos os casos positivos são contactados no dia da notificação através do contacto prévio”, diz a mesma entidade, referindo que “o inquérito epidemiológico é realizado a posteriori”. “Considerando a metodologia implementada a 21 de Janeiro em Lisboa e Vale do Tejo, mais de 90% dos novos casos são contactados no próprio dia do conhecimento do caso. Os que não se conseguem contactar deve-se ao facto de os utentes não atenderem, ou, não terem telefone de contacto. Nestes casos, alertamos as autoridades. 80 a 89% contactados e isolados, bem como os contactos de risco (contactos de alto risco)”, especificou.