Fernando Medina: “Critérios para recuar no desconfinamento devem ser avaliados”

Autarca diz que Lisboa vai recuar no desconfinamento, mas não concorda com os critérios que estão em vigor e diz que é preciso acelerar a vacinação. Sem desvendar ainda o seu futuro, garante que quer Costa no poder “para lá de 2023”.

O presidente da Câmara de Lisboa diz que não se pode manter o mesmo “nível de condicionamento da vida” quando a vacinação contra a covid-19 já chegou mais de 30% da população. Defendendo que a actual matriz de risco tem de ser revista, Fernando Medina coloca-se do lado do Presidente da República (e em oposição ao Governo) em dia de Conselho de Ministros. O autarca, que ainda não desfaz o tabu da sua recandidatura, diz em entrevista ao PÚBLICO e à Renascença (emitida às 23h) que a situação da pandemia na capital continua a piorar e que um recuo no desconfinamento é mais do que provável. 

O Governo decide esta quinta-feira medidas para os concelhos que ultrapassaram linhas vermelhas. O que é que se pode esperar para Lisboa?
Mantendo o Governo a matriz e os indicadores, o que acontecerá com probabilidade a Lisboa e a outros municípios vai ser um recuo relativamente às regras do desconfinamento, que terá sobretudo um impacto ao nível dos horários da restauração, que ficarão limitados ao sábado até às três e meia.

Tem noção de como estão os números neste momento em Lisboa?
Ainda estamos numa fase ascendente da incidência, não estamos ainda sequer numa fase de estabilização, menos ainda numa fase de recuo. De acordo com a actual matriz de risco, e este é um ponto que na minha opinião deve ser avaliado, isto vai significar um recuo no processo de desconfinamento.

Mas pode-nos dizer qual é a incidência neste momento em Lisboa?
Os números concretos é a Direcção-Geral da Saúde que os revela. Eu acompanho a posição daqueles que defendem que nós temos de olhar de novo para os indicadores.

Olhar de novo para a matriz de risco?
Sim, porque a matriz foi definida quando o estado da vacinação era muito mais atrasado do que é hoje. Nós não podemos ter um nível de condicionamento da vida económica e social exactamente nos mesmos termos quando nós temos 5% da população vacinada ou quando ultrapassamos os 30% da população vacinada. Temos de fazer um grande esforço para acelerar a vacinação, acelerar e massificar o processo de testagem, mas na minha opinião devem ser avaliados os critérios para os recuos no desconfinamento.

Não o preocupa já o aumento de casos em cuidados intensivos? Apesar de tudo, a matriz continua a ser um bom pré-indicador. Acha que os cuidados intensivos e a vacinação devem passar a ser critérios a ter em conta na matriz?
Claro. Aliás, eles é que vão ditar a severidade da pandemia. Os processos de confinamento foram empregues fundamentalmente para proteger o sistema de saúde e a sua capacidade em lidar com os casos mais graves. Ora, essa capacidade não é afectada da mesma maneira quando a vacinação progride para valores muito superiores. Esse é um critério básico que deve ser adoptado. Vejamos: nós temos um aumento da incidência, mas devemos ter noção da proporção daquilo que estamos a falar. Estamos a falar, no país, de valores à roda de mil casos por dia, mas viemos do pico da pandemia, em Janeiro e Fevereiro, de valores que chegaram a 16 mil casos por dia. Estamos com cerca de 450 casos de internamento, nós viemos de valores de 7000 casos em Janeiro.

Com o prejuízo que isso causou para toda a actividade não covid.
Eu não estou a desvalorizar a importância de contermos a evolução da pandemia. O que eu quero é frisar que estamos numa situação significativamente diferente da que era há um ano, que está numa fase crescente, mas nós hoje temos duas grandes armas que antes não tínhamos com esta força: a possibilidade de testagem maciça — e Lisboa tem um programa que eu creio que é único, que é a possibilidade de testagem gratuita por todas as pessoas e isso é um elemento de enorme capacidade para acelerar a testagem, o rastreio e o isolamento das pessoas, para quebrar ou reduzir a linha de contactos. Por outro lado, há todo o esforço de aceleração do processo de vacinação.

A campanha de testagem não tem tido uma adesão maciça. Como é que isto se explica?
Ela está a crescer significativamente. Nós tivemos até à semana passada um total de cerca de 68 mil testes, agora já estamos com quase 5000 testes por dia. O que aconteceu é que nós criámos este programa exactamente no início do desconfinamento, quando os números eram muito, muito baixos. Na altura, houve perto de uma centena de farmácias com essa possibilidade, mas as pessoas procuravam pouco a testagem. O que estamos a verificar agora é que as pessoas estão a responder ao apelo da testagem. E decidimos alargar ainda mais o programa: ele começou com dois testes gratuitos por mês, num conjunto limitado de freguesias; agora alargamos a todas as pessoas e as vezes que forem necessárias e alargamos a todos os que não são residentes em Lisboa.

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Rui Gaudêncio

É possível fazer algum balanço da medida do fim-de-semana passado de proibição das entradas e saídas da área metropolitana?
Eu não tenho esses elementos. Não consigo fazer esse balanço.

Prevê-se que seja uma medida para continuar ou, tendo em conta que agora serão tomadas medidas mais em concreto para os municípios, provavelmente vamos assistir a um quadro diferente?
Essas matérias têm sido alvo de decisão por parte do Governo. Não tenho nenhum elemento concreto sobre a eficácia que essa medida traz. Creio que na cabeça dos especialistas o que estará não é a contenção da expansão desta variante, mas desacelerar o ritmo a que ela se está a expandir pelo país todo.

Um recuo na capital não acaba por manchar a imagem de todo o país?
Um recuo da capital decorre dos nossos próprios critérios. A grande questão é saber se vamos conseguir ou não acelerar o ritmo de vacinação para conter a pandemia. Temos duas grandes armas a acrescer à principal, que é o nosso próprio comportamento: se vamos ou não a festas, se organizamos jantares com amigos e familiares, como é que é a nossa vida social. Depois temos a testagem e a vacinação, é aí que temos de colocar as fichas.

Está preocupado com os efeitos que um recuo de Lisboa possa ter na economia e no turismo?
Até nós vencermos esta pandemia teremos uma situação débil do ponto de vista das condições de arranque de qualquer actividade económica, em particular do turismo. Até nós conseguirmos virar a página, ter um elevado nível de vacinação e uma vacina que se mostre eficaz às variantes que vão aparecendo vivemos sempre numa situação que é relativamente precária do ponto de vista da retoma da actividade económica.

Costa deve ficar “para lá de 2023"

Ainda não apresentou a sua recandidatura, quando tenciona fazê-lo?
Depois da marcação das eleições é o tempo das decisões e da comunicação dessas decisões.

Já sabe se vai sozinho ou se vai fazer algum acordo?
Todo esse tema será tema para uma futura entrevista.

Estamos a duas semanas do congresso do PS. Já pensou o que vai dizer no congresso?
Ainda não pensei. O congresso está muito marcado por dois factos: a reeleição do secretário-geral António Costa e a proximidade do acto eleitoral autárquico. Obviamente irei intervir nesse âmbito.

Na sua moção a este congresso, António Costa já fala na governação pós-2023. Acha que é possível o PS continuar no Governo?
Isso dependerá dos portugueses. Não há razões para que esta legislatura não se cumpra. Espero que consigamos virar a página da pandemia, começar a execução do plano de recuperação económica e social e depois os portugueses farão a avaliação em 2023.

Há um ano, o presidente do PS, Carlos César, dizia aqui numa entrevista à Renascença e ao PÚBLICO que os protocandidatos à liderança do PS deviam continuar a esperar sentados. Vai continuar a esperar sentado?
Concordo. Acho essa uma boa expressão. António Costa tem sido um muito bom secretário-geral do PS, mas acima de tudo tem sido um muito bom primeiro-ministro. É difícil imaginarmos alguém que fosse testado nas condições tão difíceis como ele está a ser testado na governação. O meu desejo, como socialista e português, é que ele se mantenha em ambos os cargos por muito tempo.

Para lá de 2023?
Para lá de 2023.