Glória ao tédio

Aquele constante não-ter-nada-para-fazer fomentou a imaginação que tornava a passagem do tempo menos custosa.

Temos uma certa tendência para achar que a solidão é deprimente, mas estamos enganados: a solidão é meramente aborrecida. Aquilo que não sabemos é que há tanto valor no aborrecimento. Ser filho único ensinou-me esta lição desde cedo. Estar sozinho, sem irmãos e sem grandes companhias com quem partilhar a idade, obrigou-me a recolher ao que trago dentro do crânio para achar algum entusiasmo.

Quando recordo a minha infância, pareço ver nela apenas uma linha contínua de aborrecimento preenchida pela Rua Sésamo no televisor, os carrinhos espalhados na carpete da sala da minha ama e os nomes que dava aos bonecos que compunham a minha humilde colecção de Playmobil. É como se não tivesse havido felicidade – que houve, muito graças à minha mãe e à minha ama e, entre outros, ao João Pedro, o meu primeiro amigo, que ainda mantenho -, é como se não tivesse havido terror e violência – olá, pai, espero que estejas descansado nesse lugar onde não nos incomodas -, é como se o tédio fosse o único responsável pelo sossego que dava sentido a toda a existência.

Foi como se os milhares de horas naquela carpete da sala tivessem formado todo o meu carácter. Aquele constante não-ter-nada-para-fazer fomentou a imaginação que tornava a passagem do tempo menos custosa, mas também que me permitia fugir do medo que habitualmente me consumia, sem que eu desse conta. E, claro, o televisor deixado no mesmo canal um dia inteiro permitia-me também deitar um olho ao que o mundo tentava dizer-me. Foi, aliás, assim que me apaixonei pelas letras: sem nada mais emocionante que me roubasse a atenção, deixei-me arrebatar pela Rua Sésamo e, daí a uns meses, aos quatro anos, podia encher o peito e dizer que sabia ler. E sabia, para grande espanto da minha família. «Como é que ele aprendeu?», ouvi perguntar tantas vezes. Nunca desvendei o segredo para o meu super-poder.

Às vezes, esqueço-me do tédio e do seu valor. Também é verdade que hoje temos as armas nucleares mais poderosas para o combater: há as Netflix e os milhões de livros por ler e mais os amigos, já para não falar das obrigações do trabalho e da família e dos amigos, e quando damos conta as vinte e quatro horas não nos chegam nem sequer para termos um bocadinho de silêncio, quanto mais para nos aborrecermos. Com saudades do tédio, forcei-me a marcar-nos um date frequente.

Agarrei num canto morto cá de casa, despojei-o dos caixotes que o caracterizavam, espreitei a gaveta das poupanças, comprei uma pequena poltrona e baptizei o espaço de “sala do tédio” (tenho uma fotografia no instagram, que pode ser vista em @nelsonfcnunes). Ali, está proibido o telemóvel e qualquer outra distracção, excepção feita a um par de livros. Todos os dias, passo ali uma hora. Para quê? Para baixar o volume à vida, mas também para exercitar a imaginação, para ter ideias novas sobre o que fazer, seja no trabalho ou em qualquer outro lugar.

Muitos dirão que isto é um luxo, mas eu riposto: ter um carro não é um luxo, é uma necessidade; ter um telemóvel não é um luxo, é uma necessidade. Pois bem: o tédio não é um luxo, deve ser entendido como uma necessidade. Porque a constante presença de ruído ao nosso redor está a matar-nos a saúde mental: hoje, já ninguém sabe caminhos para lado algum, porque o GPS está constantemente ao nosso serviço; hoje, a memória prega-nos partidas frequentes porque temos a maior enciclopédia do universo guardada no bolso – chama-se internet. Passa a morar em nós a vertigem (e a culpa) de consumir tudo, apenas para repararmos mais tarde que não fomos capazes de absorver nada. E depois há a vida dos outros, sempre tão produtivos, sempre tão cheios de acção e entusiasmo, e sentimo-nos culpados por não termos tudo o que os outros têm. Os outros, contudo, não têm tédio nas suas vidas, e não sabem o que estão a perder.