Covid-19: ajuda humanitária russa a Itália escondeu uma operação de espionagem

Em Março de 2020, quando a primeira vaga do ainda desconhecido novo coronavírus se abateu sobre Itália, uma missão russa de auxílio serviu para recolher informações que foram cruciais para o desenvolvimento da vacina Sputnik V, conta o jornal La Repubblica.

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Camiões militares transportam caixões com vítimas mortais da pandemia em Bérgamo Reuters/Sergio Agazzi

Uma operação de ajuda humanitária russa em Março de 2020, quando a Itália vivia os piores dias da primeira vaga da pandemia de covid-19, escondeu uma missão de espionagem que viria a ser essencial para o desenvolvimento da vacina Sputnik V. A história da operação “Da Rússia com amor” é contada pelo diário italiano La Repubblica, que descreve como Moscovo conseguiu reunir dados cruciais para combater o vírus, sem que as autoridades italianas desconfiassem das intenções ocultas da operação russa.

A 22 de Março de 2020, 13 aviões militares russos aterraram na base aérea de Pratica di Mare, a sul de Roma, carregados com material e pessoal médico. A operação tinha sido acertada 24 horas antes numa conversa telefónica entre o Presidente russo, Vladimir Putin, e o primeiro-ministro italiano à altura, Giuseppe Conte, conta o jornal italiano. O destino final da ajuda russa estava mais a norte, em Bérgamo, onde o novo e ainda pouco conhecido coronavírus já infectara mais de 8 mil pessoas. Depois da origem na China, o epicentro da pandemia estava agora em Itália, com mais de 80 mil casos positivos e 8 mil mortes.

A missão da Rússia, composta por 104 militares, incluía também dois nomes que foram acrescentados à lista inicial: Natalia Y. Pshenichnaya e Aleksandr V. Semenov que, para além de serem os únicos civis, eram também os dois epidemiologistas russos mais conceituados. E eram também os pivots da verdadeira operação, delineada pelo Ministério da Defesa.

“‘Da Rússia com amor’ foi acima de tudo uma grande operação de espionagem. Não às instalações militares italianas ou mesmo às bases da NATO. O alvo era um inimigo muito mais feroz, à época considerado como a ameaça suprema em todo o planeta: a covid-19”, escrevem os jornalistas Gianluca di Feo e Floriana Bulfon, os autores da extensa reportagem que foi publicada na edição de 17 de Junho do La Repubblica.

Os cientistas russos colocaram-se assim numa posição privilegiada para recolher informações em primeira mão, algo que não tinham conseguido na China, onde as autoridades de Pequim não facultaram o acesso in loco, permitindo apenas a assistência através de videoconferência. E, terminada a missão em Itália, a 9 de Abril, os dados recolhidos pela dupla de epidemiologistas russos nunca foram partilhados com as autoridades italianas, revela o jornal, embora ressalve que os militares russos destacados nos hospitais de Bérgamo ofereceram uma ajuda preciosa no combate ao vírus, “na hora mais negra da história recente” de Itália.

A operação “Da Rússia com amor” serviu para reunir dados sobre o coronavírus e desenvolver a estratégia do Kremlin contra a pandemia, refere o jornal italiano, revelando que os cientistas russos destacados para Bérgamo estavam sob ordens directas do ministro da Defesa, Sergei Shoigu. No terreno, a liderança ficou entregue ao general Sergei Kikot, especialista em guerra biológica com longa experiência, incluindo na Síria, onde se destacou por ter negado o uso de armas químicas pelo regime de Damasco.

A informação recolhida em Itália acabou por ser decisiva para a criação da vacina Sputnik V: a sequenciação genética do novo coronavírus foi feita a 17 de Março a partir da amostra de uma pessoa infectada em Roma. A sequência genética já havia sido divulgada na China em Janeiro, mas eram necessárias informações directas para os estudos da vacina. Uma semana após a recolha da primeira amostra, 32 virologistas, médicos e enfermeiras russos estavam a trabalhar na terapia intensiva em Bérgamo, onde não faltaram situações reais.

O La Repubblica deixa uma interrogação na sua reportagem. Foi Vladimir Putin quem ofereceu ajuda ou Giuseppe Conte que a pediu? Numa entrevista à BBC, o então primeiro-ministro rejeitou a ideia de que a missão russa tivesse segundas intenções mas, segundo o jornal sediado em Roma, a história do que aconteceu em Março de 2020 pode ser mais complexa.