As manhãs de Liniker

Manhãs de Setembro é a nova produção brasileira da Amazon Prime Video feita “em homenagem à vida e obra” da cantora Vanusa, que morreu em 2020. Liniker (de Barros) é a estrela.

Foto
Liniker e Gustavo Coelho em Manhãs de Setembro DR

Cassandra demorou, nas suas palavras, “30 anos, dois meses e 19 dias” para ter um lugar só dela. Saiu da sua pequena terra e foi viver para São Paulo, com o sonho de cantar e honrar a memória da sua maior referência: Vanusa, a cantora da Nova Guarda brasileira que morreu em Novembro do ano passado. Trabalha como entregadora de mota e, à noite, canta num clube onde lhe pedem para não cantar Vanusa, mas sim Anitta, Ludmilla ou Pabllo Vittar, e tem um namorado que trabalha num restaurante.

Nada, prometeu a si mesma quando chegou à cidade, iria tirá-la do seu caminho. Até ao dia em que, à sua porta e logo quando está a estrear o apartamento em que finalmente vive sozinha, aparece Leide, uma mulher com quem teve um caso de uma noite só há uns anos, com um miúdo que é filho dela. Primeiro rejeita-os, expulsando-os da casa que tanto lhe custou a conseguir, mas há uma ligação à qual ela não pode escapar, e mesmo que tenha conseguido tanto a sua vida não é bem um mar de rosas.

É esta a premissa de Manhãs de Setembro, a nova série de cinco episódios com cerca de meia hora da Amazon Prime Video que se estreia na sexta-feira. Escrita por Josefina Trotta, com Alice Marcone e Marcelo Montenegro, vai buscar o nome ao clássico celebrizado por Vanusa, que é aliás cantado no primeiro episódio, nos créditos em que se indica que a série foi feita “em homenagem à vida e obra de Vanusa”. Quem dá vida e voz a Cassandra é Liniker (de Barros), que tinha a banda Liniker e os Caramelows, que se separou nos primeiros meses de 2020.

É o primeiro grande papel da cantora fora dos palcos. Numa breve entrevista de Zoom, Liniker contou ao PÚBLICO que estudava teatro quando a sua banda rebentou de um dia para o outro em 2015, o que não lhe dava tempo para seguir este tipo de projectos. Agora, com a banda para trás e focada numa carreira a solo (vem aí disco em nome próprio em breve, afiança), tinha espaço para aceitar o convite para a série. A obra de Vanusa era-lhe familiar, mas nada como a relação que Cassandra tem com ela. Apesar de cantar temas popularizados pela intérprete ao longo da série, não vai incorporar nada no seu reportório. Deixa bem claro: Cassandra é Cassandra, Liniker é Liniker.

A série já estava escrita quando o papel lhe chegou às mãos, mas Liniker, uma mulher negra trans a fazer de mulher negra trans e perfeitamente ciente do que isso implica em termos de representação, fez questão de partilhar as suas vivências com os autores, mudando pormenores como linguagem e gestos à medida que a história se desenrola. Cassandra não é um modelo de virtudes, erra bastante e é essencialmente humana, pelo menos de uma forma que personagens trans em ficção não costumam ter direito a ser.

Além de Liniker, o elenco inclui Karine Teles, como Leide, a mãe de Gersinho, o filho de Cassandra que é interpretado por Gustavo Coelho, Clodd Dias ou Thomas Aquino, como Ivandro, o namorado de Cassandra. Há também uma participação especial de Linn da Quebrada, a artista multifacetada que foi alvo do documentário Bixa Travesty, no qual Liniker tinha figurado.