Luis Miguel - La Serie: o renascer do Sol do México

Luis Miguel - La Serie bateu recordes, tornando Luis Miguel no primeiro artista mexicano a alcançar cinco mil milhões de downloads no Spotify. Não podia ser de outra forma, quando o pico emocional de cada episódio é dedicado ao reportório do cantor.

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Quarenta anos de carreira fazem de Luis Miguel um veterano do mundo da música. Nos palcos, o Sol de México sempre se fez ouvir. Na vida privada, preferiu o silêncio. Luis Miguel - La Serie chegou à Netflix para desmistificar o mito e reinventar o boom latino-americano. 

No Verão de 1988, o sol brilhava em território nacional. Ou, pelo menos, assim fez questão de cantar Marco Paulo. O pop ritmado de Sempre que Brilha o Sol invadia rádios por todo o país, valendo ao cantor um dos seus maiores êxitos. De mansinho, chegava a Portugal um resquício da história que acontecia do outro lado do Atlântico. História que hoje se conta na Netflix em Luis Miguel - La Serie

Das praias de Acapulco para o mundo, Luis Miguel lançava, um ano antes, Cuando Calienta El Sol, um dos muitos sucessos que o baptizaram com um novo nome: Sol do México. Embora tenha cantado e encantado desde a sua estreia no mundo da música com apenas 11 anos, o homem por trás da obra sempre deu azo a especulação. Os dramas familiares, os escândalos e os múltiplos romances fizeram correr tinta nos tablóides durante décadas. Faltavam, porém, esclarecimentos na primeira pessoa. 

Até que, em 2018, Luis Miguel decide partilhar a sua intimidade com as produtoras Gato Grande e MGM, prometendo colocar um ponto final ao escrutínio. À primeira vista, o volte-face parece quase matemático. Artista vê os seus tempos áureos a desvanecer e decide regressar para uma última tentativa de agarrar o estrelato. Golpe publicitário ou vontade genuína de desmistificar o mito? A série fala por si. 

Ao sabor de flashbacks, Luis Miguel desdobra-se em duas temporadas, protagonizadas por Diego Boneta. A estética cinematográfica não nos leva a conhecer o artista antes da arte, porque, de facto, nunca o houve. A janela abre-se a uma espécie de infância, roubada pela fama precoce. Sem mãe e contratualmente amarrado a um pai tirano, a tragédia pinta Luis Miguel como uma vítima das circunstâncias, preso em teias de mentiras. 

A idade adulta traz a vontade de escangalhar as amarras. Estão lançados os dados para um segundo capítulo pintado de fresco, após a sua estreia no passado mês de Maio. A passividade dá lugar a um animal de palco, demasiado confortável numa indústria de cortar à faca. Esquecem-se as origens e a história repete-se. A pessoa que mais devia reconhecer a importância de uma família unida acaba por falhar como pai, irmão e parceiro. 

O engenho transparece neste ponto de viragem. Heróis há poucos e Luis Miguel não é certamente um deles. Abordar a vida de uma celebridade de forma não póstuma propicia o acarinhar do ego, mais do que um retrato fidedigno. As expectativas apontavam para o vanity project, mas consegue-se algo muito além da vaidade. Demonstra-se, acima de tudo, humanidade, num esforço colectivo entre actores e argumentistas. 

No reverso dos erros, está, então, a aprendizagem. Aprender a confiar, depois de tantas vezes reduzido a uma máquina de fazer dinheiro. Aprender a priorizar a vida pessoal ao invés da carreira. Até (re)aprender a cantar. E nada é estanque. Quando o pano desce, ainda existe espaço para crescer em direcção a um futuro desfecho. 

O resultado? Sucesso internacional sem precedentes. Luis Miguel - La Serie bateu recordes, tornando Luis Miguel no primeiro artista mexicano a alcançar cinco mil milhões de downloads no Spotify. Não podia ser de outra forma, quando o pico emocional de cada episódio é dedicado ao reportório do cantor. Dos acordes calorosos de Suave a baladas como Culpable O No e Hasta que me Olvides, a música assenta que nem uma luva enquanto peça-chave do enredo. 

No fim, fica a vontade de saber e ouvir mais. Marketing “íntegro” à parte, semelhante comoção não se faz sem talento. E isso Luis Miguel tem de sobra.