António Costa no Colégio da Europa: “Vencemos em algumas semanas tabus que mantivemos durante anos”

O primeiro-ministro foi à Bélgica encerrar o ano académico no Colégio da Europa, em Bruges.

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António Costa, primeiro-ministro Reuters/PEDRO NUNES

Marcelo Rebelo de Sousa inaugurou, em Outubro, o ano académico no Colégio da Europa, em Bruges, e António Costa encerrou-o nesta sexta-feira. O Presidente da República falou sobre Mário Soares, a quem foi atribuído o patronato académico do colégio, e descreveu-o como alguém que “sonhou com um Portugal livre numa Europa forte e unida, não uma Europa onde os princípios fundamentais são esquecidos, sacrificados por conveniências de curto prazo”. Já o primeiro-ministro, esta manhã, dedicou-se aos tabus que têm caído neste “curto ano” em que “quase tudo mudou”.

“Pela primeira vez, a Europa não respondeu uma crise através da austeridade. Pelo contrário, uniu-se para criar um novo instrumento financiado por uma emissão de dívida da comissão para apoiar o investimento e as reformas, relançando assim todas as economias europeias”, disse António Costa, numa cerimónia no Concert Hall de Bruges, onde foi recebido pela reitora da instituição e ex-chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini.

Foi depois dos curtos discursos de Mogherini, do burgomestre de Bruges e do Governador da Flandres Ocidental que o primeiro-ministro português fez a sua intervenção na qual falou sobre a semana e o momento histórico vivido na Europa, por ter havido “a primeira emissão de dívida” e a aprovação por parte da comissão dos primeiros planos nacionais de recuperação e resiliência. "Num curto ano, quase tudo mudou. Como dizíamos ontem, vencemos em algumas semanas tabus que mantivemos durante anos”, assumiu António Costa. 

Há dois dias, em Lisboa, Ursula von der Leyen anunciou, ao lado do primeiro-ministro, a aprovação do PRR português, o primeiro a receber luz verde da Comissão Europeia (os fundos começarão a chegar em Julho). A presidente da Comissão Europeia sublinhou o “papel crucial” de Portugal na estratégia de recuperação económica e social europeia, nomeadamente através da presidência portuguesa do Conselho Europeu, que terminará este mês. “Não esquecerei como é que os portugueses enfrentaram tudo”, disse em Lisboa.

A presença de Soares

No seu discurso, António Costa percorreu o caminho desde que Mário Soares foi ao colégio de Bruges explicar as razões pelas quais Portugal pediu a adesão à então CEE, nesse mesmo ano, até as prioridades da presidência portuguesa do Conselho da União Europeia, com destaque para a recuperação económica, o desenvolvimento do pilar dos direitos sociais e o reforço da autonomia estratégica da União — que não quer dizer proteccionismo mas abertura ao mundo.

Lembrou a importância da cimeira com a Índia, retomando uma cooperação estratégica que estava bloqueada há demasiado tempo, e Mário Soares também serviu de exemplo para Costa insistir em afirmar a Europa como uma “terra de asilo” para os que fogem às guerras, às perseguições políticas e religiosas e a toda a espécie de discriminações.

Foi com outra frase de Soares que o primeiro-ministro lembrou um princípio fundamental que tem de continuar a reger a construção europeia: “Reforçar a democracia é reforçar a Europa”.

Federica Mogherini, a reitora do Colégio que já foi Alta Representante da UE para a política externa, instigou os cerca de 500 alunos que terminaram a sua graduação a inspirar-se na coragem e no sorriso do líder histórico do PS que faz parte da plêiade das grandes figuras europeias. Em fundo, no palco, uma grande fotografia do pai fundador da democracia portuguesa exibindo um largo sorriso. Na plateia, o seu filho João Soares e um dos seus netos, Jonas. Como disse Mogherini, neste ano lectivo diferente de todos os outros, por causa da pandemia, conseguem ser todos “soaristas”.