Pânico: no limite do medo

Cerca de 12% das pessoas já tiveram, pelo menos, um ataque de pânico. Embora as causas não sejam totalmente conhecidas, há alguns factores de risco a ter em conta.

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Os ataques de pânico são uma experiência muito mais comum do que se pensa: cerca de 12% das pessoas já tiveram, pelo menos, um. Embora as causas do pânico não sejam totalmente conhecidas, há alguns factores de risco associados: traços de personalidade “neuroticismo”, sensibilidade à ansiedade, trauma, níveis elevados de stress, abuso de substâncias, etc. O que distingue uma crise de pânico de outras crises de ansiedade é, sobretudo, um sentimento muito intenso de uma crise iminente, uma forte sensação de que algo perigoso vai acontecer: a morte está próxima, vai perder o controlo e/ou que vai enlouquecer. Quando a pessoa teme voltar a ter outro ataque de pânico e/ou evita lugares ou actividades (por exemplo, exercício físico) pode-se diagnosticar, pelo menos durante um mês, uma perturbação de pânico.

Para percebermos as crises de pânico, temos de perceber primeiro a função dos três sistemas emocionais/motivacionais que regulam o nosso organismo:

1. O Sistema de Defesa/Ameaça cujo principal objectivo é a detecção de pistas de ameaça e procura de protecção, com a activação subsequente de um conjunto de respostas, por exemplo: luta/fuga, desmobilização e freezing. Este sistema rege-se pelo princípio “mais vale prevenir do que remediar”, ou seja, mais vale disparar o alarme e depois não ser nada, do que ficarmos tranquilos e não fugirmos do perigo. Para o bem e para o mal, este é o nosso sistema predominante, sendo responsável pelo afecto negativo (ansiedade, medo/pânico tristeza, nojo, raiva);

2. O Sistema de Procura que mobiliza/activa o indivíduo para comportamentos de procura/consumo de recursos e proporciona afecto positivo Está relacionado com a definição/concretização dos nossos objectivos, o lazer/brincadeira e sexo. Tudo o que seja recompensa, ligada à dopamina, está dependente deste sistema: mais dinheiro, prémios, mais “gostos” no Facebook ou Instagram, um carro novo, um novo projecto, uma peça de roupa nova activam este sistema com a consequente activação de emoções/motivações que lhe estão associadas: alegria, euforia, orgulho, desejo e interesse;

3. O Sistema de Tranquilização /Apaziguamento cujo foco é a afiliação, conexão e ligação ao outro. Este sistema evoluiu para permitir aos mamíferos proporcionar cuidados às crias e quando é activado dá origem a uma cascata de neuroquímicos associados ao bem-estar: a oxitocina (também chamada a hormona do amor) e os opiáceos que são os grandes responsáveis pela redução do stress e da dor. Como consequência da activação deste sistema, geram-se emoções positivas de calma, contentamento, paz, bondade e sentimentos de segurança nas relações sociais.

Então, sofrimento psicológico (e, em parte, o físico) é conceptualizado como sendo o resultado do desequilíbrio destes sistemas. Normalmente, o Sistema de Tranquilização está subactivado e o de Defesa/Ameaça sobreactivado. O pânico é, assim, um falso alarme. Não há perigo, mas é como se houvesse! Como se tivéssemos um detector de incêndios que disparasse quando fazemos torradas. Isto está, normalmente, relacionado com experiências prévias negativas que dão às pessoas a sensação de maior vulnerabilidade e falta de controlo (trauma, morte de um ente querido, etc.).

Portanto, a mudança, na minha abordagem, passa por equilibrar estes sistemas, com o uso de várias técnicas, entre elas competências de mindfulness que, fundamentalmente, nos ajudam a não ter medo das nossas emoções/sensações, e de compaixão que é o antídoto natural do pânico.