A infantilização da política

Na data em que se assinalam os primeiros cem dias do seu segundo mandato, Marcelo deve repensar aquilo que não considerou ser um “cheque em branco” por parte dos portugueses. Esperamos um líder que consiga afirmar a sua posição e que, sobretudo, estabeleça a sua autoridade.

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Nuno Ferreira Santos

A inexistente resposta de Marcelo ao confronto institucional com Costa mostra uma tremenda infantilização da política e do eleitorado, mas assinala uma tendência ainda mais grave — a subjugação do poder de regulação ao poder executivo.

Começo com uma afirmação polémica: um Presidente da República (PR) não deve ser, primariamente, um elemento de estabilidade. Ainda que tenha um papel importantíssimo na defesa da Constituição, na contenção do avanço de extremismos e no garante da não-desestabilização do país, a figura mais alta da nação não deve pautar a sua acção política pela “estabilidade” — deve ser um contrabalanço ao poder executivo e um de regulação ao legislativo. Deve privilegiar sempre a regulação à estabilidade e, sobretudo, não se deve escudar de crises políticas em nome desse tal valor vago.

É certo que as afirmações de Marcelo não foram, inicialmente, felizes. A promessa que fez acerca da impossibilidade de regressar a um confinamento foram prematuras e denotaram o lançamento de uma promessa que, à vista de todos e face aos actuais números associados à região de Lisboa e Vale do Tejo pode, eventualmente, não ser cumprida. E é também discutível que a intervenção do PR possa ter sido excessiva e desapropriada. Independentemente de tudo isto, há algo que não deve, nem pode ser feito pela actual figura magna da nação — a infantilização da política e dos eleitores com a preocupação futebolística.

Compreendo que exista uma grande parte do eleitorado preocupada, neste momento, com o desporto-rei e com a respectiva participação da selecção nacional na competição — uma representação que nos deve orgulhar e motivar enquanto portugueses que somos. O que não pode ser aceite é a sobreposição e a utilização deste pretexto como um disfarce para um problema político e de crise governativa. Não podemos ter um PR a promover este tipo de comportamentos.

Os portugueses deviam exigir um Presidente que se comporte à altura daquilo que é e representa – acima de tudo, um líder da nação eleito e legitimado em termos políticos por quase 60% da população votante. Na data em que se assinalam os primeiros cem dias do seu segundo mandato, Marcelo deve repensar aquilo que não considerou ser um “cheque em branco” por parte dos portugueses. Não esperamos, deste, uma estrela pop, um comentador ou um analista desportivo. Esperamos um líder que consiga afirmar a sua posição e que, sobretudo, estabeleça a sua autoridade, não de forma despótica, mas de forma decisiva, sobre o parlamento e respectivo primeiro-ministro. Que assuma, eventualmente, que errou, mas que não permita a sobreposição da autoridade executiva à sua própria.

Marcelo não tem garantido isso aos portugueses. Não o fez de forma peremptória no último mandato, e mesmo tendo em conta que é um presidente “lame duck” (visto que não se pode reeleger à luz da lei portuguesa) também não o está a conseguir efectuar agora. A única exigência de (parte dos) eleitores é a maior afirmação e, no fundo, uma elevação ao comportamento e a uma atitude condizente com um líder de estado com autoridade (do ponto de vista democrático) e que não veja no futebol, nem nas apostas de garrafas de vinho com o primeiro-ministro Órban (a quem devia estar a falar sobre democracia em pandemia e sobre a nocividade de leis plenipotenciárias e de governação por decreto) um disfarce. Queremos um PR. Não queremos uma estrela pop. Queremos uma figura que esteja à altura do posto de primeira figura política da nação.