Gesto de Ronaldo pode ser o “repto” para uma discussão pública sobre as marcas que patrocinam eventos desportivos

Especialistas ouvidos pelo PÚBLICO consideram que o gesto do Ronaldo pode ter “impacto imediato” nos hábitos alimentares dos mais jovens, no entanto, também levanta outras questões.

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Quando se preparava para a conferência de imprensa de antevisão do jogo contra a selecção húngara, Ronaldo pegou nas duas garrafas de Coca-Cola que tinha à sua frente, afastou-as e substituiu-as por garrafas de água. Este gesto que está a correr mundo já contribuiu para a desvalorização em bolsa da Coca-Cola. As acções deste gigante norte-americano caíram 1,6% meia hora depois do sucedido, reflectindo uma perda de valor bolsista na ordem dos 3300 milhões de euros.

Paul Pogba, jogador de França, fez algo semelhante ao português. Na sala de imprensa, desviou uma garrafa de cerveja Heineken. No entanto, nem a repercussão foi similar nem, até ao momento, houve qualquer tipo de reacção no mercado accionista.

Mas será que estes gestos podem contribuir para a mudança de hábitos alimentares nos jovens? O PÚBLICO ouviu dois especialistas que são unânimes no “impacto imediato” da acção do internacional português, mas temem que a longo prazo possa “morrer”. No entanto, isto prova o impacto das figuras mediáticas na transmissão de mensagens ou até pode iniciar uma discussão pública. 

Pedro Graça, nutricionista e director da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto, explica que o gesto do craque é importante numa óptica de os mais novos “imitarem os líderes” que façam “gestos que impliquem melhoria de hábitos alimentares ou mais saudáveis, nomeadamente neste caso, a promoção do consumo de água”. Já que, no imediato, as figuras públicas, quando tomam estas decisões, “acabam por incentivar estes consumos na população”

Mas o especialista considera que, acima de tudo, o gesto do Ronaldo pode “levar as pessoas a reflectir sobre algumas coisas, principalmente, porque é que nós temos competições que promovem o bem-estar e a saúde e depois são patrocinadas por empresas cujos produtos alimentares, quando consumidos muito regularmente, colocam em risco a saúde das pessoas”. É neste contexto “paradoxal” que Pedro Graça considera que Ronaldo possa ter lançado o debate e que o gesto possa “ser mais interessante do que o impacto imediato que vai ter em muitas crianças”.

A nutricionista e professora na Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa Cláudia Viegas também não tem dúvidas de que o jogador da Juventus “pode ser determinante para condicionar comportamentos por parte dos mais jovens”, embora acredite igualmente que o impacto do que aconteceu vá “morrer”, já que só se conseguem bons resultados no campo dos hábitos alimentares saudáveis quando a mensagem é passada de forma continuada e repetitiva”. Por isso, lamenta que o gesto seja um “caso isolado” e não dê muitos frutos. 

A docente sublinha também que este acontecimento mostra as “limitações da saúde pública”, já que “ele (Cristiano Ronaldo) fez isto porque naturalmente tem estas preocupações”. “Nós, saúde pública, queremos promover as frutas, os hortícolas, as leguminosas ou a água de uma forma massiva para os diferentes grupos da população e não temos verbas para fazer isso”. Desta forma, Cláudia Viegas considera que isto veio provar que a publicidade em saúde pública, caso tivesse mais verbas, seria “eficaz”. Lamenta, assim, que as “grandes marcas”, que têm dinheiro para fazer estas coisas, o façam — e é por isso, conclui, que “as pessoas têm muitas vezes maus hábitos”. 

Texto editado por Carla B. Ribeiro