O passageiro

Melodrama de câmara que não arvora bandeiras, Supernova é um comovente dueto para dois actores de excepção em pico de forma.

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Supernova é a oportunidade rara de ver um dueto para dois instrumentistas de excepção em pico de forma
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,Mark Darcy
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Primeiro, tivemos O Pai: viagem à dor de perder a identidade pelos olhos de um idoso com demência. Depois, tivemos Blackbird — A Despedida: o último fim de semana de uma matriarca que decidiu já não querer viver com a sua doença degenerativa e partir enquanto ainda é ela própria. Agora, como quem não quer a coisa, quase para despachar produto, chega o melhor dos três: Supernova, segunda longa do actor britânico Harry Macqueen, road movie pela verdejante Inglaterra rural onde um casal de longa data embarca numa auto-caravana naquela que será uma despedida da vida que levavam. É que Stanley Tucci, escritor de profissão, sofre do que parece ser Alzheimer (o filme deixa isso sempre na sombra) e está lentamente a perder o controlo — como diz às tantas, “estou a tornar-me num passageiro, e não quero ser um passageiro”. Tudo isto é contado com uma reserva e uma contenção que identificamos como tipicamente britânicas, mas também com uma “normalidade” quotidiana que nem sempre se sente neste tipo de melodrama (o ponto de referência mais evidente é o sublime 45 Anos de Andrew Haigh). O elemento perturbador da história é a presença de uma doença devastadora, e o filme é sobre o modo como se escolhe ou não enfrentar essa “sentença” — o que desarma logo qualquer acusação que se pudesse fazer a Supernova de ser um “filme queer”. O casal formado por Stanley Tucci e Colin Firth não ergue bandeira, não é símbolo de nada, não é arquétipo representacional de uma comunidade. São apenas personagens de corpo inteiro, um casal como qualquer outro que se ama, que se conhece, que vive junto há anos e que tem de lidar com a mudança que a demência traz às suas vidas.