Roland Garros revelou uma Krejcikova desconhecida

Novak Djokovic e Stefanos Tsitsipas decidem hoje o título masculino.

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Krejcikova Reuters/BENOIT TESSIER

As qualidades de Barbora Krejcikova na variante de pares já eram sobejamente conhecidas e traduzidas em seis títulos do Grand Slam (depois de três no escalão júnior) e a subida ao primeiro lugar do ranking da variante. Contudo, ninguém de apercebeu dos rápidos progressos da checa na competição individual. Colocada no 118.º lugar da tabela em Agosto, no regresso do circuito profissional após a paragem causada pela pandemia, Krejcikova estreou-se no top-100 depois de passar três adversárias em Roland Garros, em Outubro, disputou uma primeira final Masters 1000 em Março e só na semana que antecedeu Roland Garros, é que a conquista do primeiro torneio no WTA Tour chamou a atenção para a checa de 25 anos. Mesmo assim, nem na final Krejcikova era considerada favorita dada a experiência da russa Anastasia Pavlyuchenkova, quatro anos mais velha. Mas ao fim de duas horas, Krejcikova confirmou aquilo que vinha demonstrando na última semana, que estava pronta para vencer um torneio do Grand Slam em singulares.

“Conquistar aqui o meu primeiro título de pares, depois o de pares mistos. Dizia a mim mesma que era bem bonito conquistar o Grand Slam nas três categorias. Agora que aconteceu não consigo acreditar. Uau!”, disse Krejcikova, após ganhar a final, por 6-1, 2-6 e 6-4, e tornar-se na primeira checa a erguer a Taça Suzanne Lenglen desde Hana Mandlikova, em 1981. “É um grande feito que ninguém esperava, nem mesmo eu”, admitiu.

A grande mudança surgiu antes do quarto encontro, com Sloane Stephens. Krejcikova teve um ataque de pânico e teve de fechar-se numa sala a falar por telefone com a sua psicóloga. Ultrapassar esse momento foi uma grande vitória pessoal da jogadora, a competir apenas pela quinta vez em singulares num major. E desde então não houve um dia em que não falasse com a psicóloga.

“Nunca tinha estado numa situação assim em singulares. Por outro lado, sabia que se quisesse ganhar não podia colocar tanta pressão sobre mim. Ela apenas me disse para ir e desfrutar e como devia falar comigo própria quando me sentisse nervosa. E também me deu muita coragem para ir para o campo e sentir-me contente só por lá estar”, contou Krejcikova, 33.ª mundial, que igualou Iga Swiatek (2020) e Jelena Ostapenko (2017) como as únicas campeãs de Roland Garros na Open Era que não integravam a lista de cabeças-de-série.

No entanto, Krejcikova entrou nervosa e duas duplas-faltas resultaram no break precoce. Mas como demonstrou várias vezes ao longo da quinzena, recuperou a concentração rapidamente, impôs o seu plano de jogo de fazer mover a adversária e somou seis jogos consecutivos. Pavlyuchenkova, a terceira mais velha tenista a estrear-se numa final do Grand Slam, reagiu no segundo set, onde foi mais agressiva e procurou desequilibrar o ponto mais cedo, opção que lhe permitiu dominar a partida, apesar de ter recebido assistência à coxa esquerda.

Foi então que Krejcikova calmamente saiu do court para trocar de equipamento e oito minutos depois iniciou a terceira partida com a mesma tranquilidade com que vencera o set decisivo meia-final, diante de Maria Sakkari, por 9-7, após salvar um match-point.

Um jogo de serviço em branco da checa revelou uma Pavlyuchenkova em dificuldades para manter o ritmo de jogo. O break imediato, igualmente em branco, confirmou o ascendente de Krejcikova, que, a 5-3, dispôs de dois match-points. A russa ainda encontrou forças para recuperar de 15-40, mas a servir para o título, Krejcikova não tremeu.

Ainda no court, a tenista checa fez questão de agradecer a presença e apoio dos compatriotas e antigos campeões, Jan Kodes e Martina Navratilova, e recordou a ex-treinadora Jana Novotna, campeã em Wimbledon em 1998 e falecida em 2017. “Tudo o que se passou nas duas últimas semanas é praticamente porque ela está a tomar conta de mim lá de cima”, afirmou Krejcikova, próxima 15.ª posicionada no ranking mundial.

Os últimos 15 torneios do Grand Slam sagraram nove novas campeãs e em Roland Garros aconteceu pelo sexto ano consecutivo, com Krejcikova a suceder a Garbiñe Muguruza, Jelena Ostapenko, Simona Halep, Ashleigh Barty e, no ano passado, Iga Swiatek. E será frente a Swiatek, parceira de Bethanie Mattek-Sands, que Krejcikova irá procurar este domingo (10h30), juntar o título de pares ao de singulares, na final de pares femininos, onde actua ao lado da compatriota Katerina Siniakova.

Neste sábado, Linda Niskova deu mais um título à República Checa, ao triunfar no torneio júnior, após derrotar igualmente uma adversária russa. Um torneio inesquecível para o ténis feminino checo, que, nas últimas nove edições da Billie Jean King Cup (a mais importante prova de selecções), conquistou seis títulos.

Não antes das 14 horas, realiza-se a final masculina entre Novak Djokovic (1.º) e Stefanos Tsitsipas (5.º).