Chefe dos serviços secretos internos israelitas alerta para perigo de violência política

O anúncio da coligação governamental que afasta Netanyahu do poder está a gerar muita preocupação entre as forças de segurança israelitas, que temem incidentes nos próximos dias.

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Naftali Bennett, líder de um partido ultra-ortodoxo, é considerado por muitos na extrema-direita israelita como um traidor Reuters/Ronen Zvulun

A tensão em Israel está a crescer e a preocupar as autoridades, sobretudo depois do anúncio do acordo de coligação governamental que vai tirar o actual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu do poder, ao fim de 12 anos.

O director dos serviços secretos internos israelitas, conhecidos como Shin Bet, emitiu um raro alerta para a possibilidade de haver episódios violentos, motivados politicamente, nos próximos dias. “Identificámos recentemente um crescimento do discurso cada vez mais extremo e incentivador de violência nas redes sociais”, afirmou Nadav Argaman, através de um comunicado divulgado no sábado e citado pela Reuters.

Não foram referidos grupos ou sequer a inclinação política dos difusores destas mensagens, mas o aviso coincide com um dos momentos mais delicados da política interna israelita nas últimas décadas. Na semana passada, foi anunciado um acordo para a formação de um governo de vários partidos, que incluem a extrema-direita nacionalista, centristas, esquerda e, de forma inédita, um partido árabe, com o objectivo de impedir a manutenção de Netanyahu no poder.

A notícia do acordo deixou os israelitas divididos e, sobretudo os sectores mais à direita, furiosos com o que dizem ser uma “traição” por parte de Naftali Bennett, líder de um partido ultra-ortodoxo, que foi um dos artífices do entendimento e irá começar por chefiar o novo Governo.

O próprio Netanyahu teceu duras críticas a Bennett, acusando-o de estar a viabilizar um “perigoso” governo de “esquerda” e pró-palestiniano.

Desde o anúncio da coligação – que ainda terá de ser aprovada pelo Knesset, o parlamento israelita, o que não é certo – que a segurança em torno de Bennett foi reforçada, diz a Reuters. Grupos de extrema-direita têm organizado manifestações perto da sua residência e de outros membros do seu partido.

A profusão de mensagens e ameaças contra Bennett é reminiscente dos dias que antecederam o assassínio do então primeiro-ministro Yitzhak Rabin, em 1995, por um nacionalista radical por causa do seu papel num acordo de paz com os palestinianos.

Desta vez, nas redes sociais circulam imagens manipuladas em que Bennett aparece com um lenço habitualmente usado pelos palestinianos.

“Este discurso pode ser interpretado por certos grupos ou indivíduos como algo que permita actividades violentas e ilegais que podem causar dano físico”, disse Argaman. O director do Shin Bet apelou ao sentido de responsabilidade dos líderes políticos e religiosos para se absterem de incentivar actos de ódio contra os seus adversários.

A recomendação de Argaman foi ignorada por alguns dos principais rabinos israelitas que subscreveram uma carta aberta em que se posicionam firmemente contra a coligação governamental que pretende retirar Netanyahu do poder e instam os seus seguidores a fazerem “tudo o que for possível” para a travar.

“Não se pode aceitar a realidade de um governo israelita que pode prejudicar as questões mais fundamentais da religião e do Estado, aceites desde o estabelecimento do Estado de Israel e até hoje por todos os governos israelitas”, escrevem os rabinos na carta publicada pelo Times of Israel.

Os líderes religiosos garantem, no entanto, que o seu posicionamento não é um incitamento à violência, mas sim ao “emprego de recursos democráticos”.

Em causa está a inclusão da Lista Árabe Unida, conhecido também como Raam, um partido árabe israelita que foi incluído no acordo de coligação e que está perto de se tornar na primeira formação política islamista a integrar um governo em Israel. Os rabinos referem-se ao partido como composto por “partidários do terrorismo”.