Quando as ovelhas se unem

Escrevo como mãe. Como mãe de um filho surdo que usa um implante coclear à direita e uma prótese auditiva à esquerda. Escrevo como uma mãe que há mais de três anos luta diariamente contra os eufemismos, contra o medo, e que deixa claro a todos quanto o conhecem que ele, o Pedro, é surdo. Recuso-me a utilizar expressões como “tem um défice auditivo” ou “ouve um bocadinho mal”. Gosto da palavra surdo, assim mesmo como ela soa e se escreve. Porque é aquilo que o meu filho é.

E o Pedro sabe que é surdo. Sabe que os ouvidos dele não funcionam e que, sem a ajuda do implante e da prótese, o mundo dele é feito de silêncios. O João, com dois anos, também reconhece a surdez do irmão e todos os dias de manhã, quando acorda, verifica se o Pedro já tem o implante colocado. Se, por acaso, ainda não tiver, ele comunica por gestos e sem palavras e eles lá se entendem naquela forma de comunicar que lhes é exclusiva e que conhecem desde sempre.

Ao longo dos anos tenho ouvido perguntar dezenas de vezes porque é que não deixo crescer o cabelo do Pedro um bocadinho. As pessoas raramente o assumem frontalmente, mas eu percebo que a ideia é esconder o implante e a prótese. E fico tão furiosa... Porque não há nada para ser escondido ali. Não há absolutamente nada de que o meu filho se deva envergonhar. E essa é a mensagem que lhe tento passar a cada dia. A surdez não é para esconder.

Quero que o Pedro cresça forte, sem medo e sem vergonha de assumir aquilo que é. Faço o meu melhor para que ele, ainda tão pequeno, perceba que o caminho só pode ser este. Mas se uns dias sinto que vai correr tudo bem, às vezes, quando olho para ele tão inocente, forma-se no meu peito um aperto que não me deixa respirar e o medo ataca cada bocadinho do meu ser.

O meu maior receio relativamente ao Pedro não são as dificuldades práticas causadas pela surdez, não é o aproveitamento escolar e tampouco são as condicionantes que a surdez lhe possa causar no futuro. Porque para resolver cada uma dessas questões cá estaremos, tão preparados quanto possível. O que me aterroriza, o que me tira o chão, é pensar que a surdez pode fazer do Pedro, do meu tão perfeito Pedro, uma vítima fácil de bullying.

Não sou psicóloga, não sei falar profissionalmente sobre estas questões e não possuo mais do que os conhecimentos básicos que adquiri ao ler uns quantos artigos mais ou menos científicos. Mas sou a mãe do Pedro e, por muito que lute, este medo nunca me deixa. Há sempre um “e se” na minha cabeça que me impede de relaxar totalmente e que me obriga a questionar se estou a fazer as escolhas certas na forma como o educo e preparo para o futuro.

Nas últimas semanas voltou a falar-se muito sobre bullying em Portugal. O episódio lamentável que culminou com o atropelamento de um adolescente no Seixal incendiou as redes sociais e o tema esteve no centro das conversas. Mas não é como se o bullying fosse exactamente uma coisa recente, pois não?

Há mais de 20 anos, andava eu no 3.º ciclo, e existia na minha escola uma aluna cujo desporto era aterrorizar aqueles que lhe pareciam teoricamente mais fracos. Ninguém imagina o medo que eu tinha dela. E foi esse medo que me colou ao chão no dia em que a vi avançar contra uma colega que estava sentada num banco do recreio, sozinha, a ler um livro. A cena que se seguiu foi tão má quanto a outra menina perder o controlo dos esfíncteres e urinar-se de medo enquanto a agressora a pontapeava no chão. E sabem quantas pessoas lá foram ajudá-la? Zero, eu incluída. Por cobardia ficámos todos onde estávamos, cheios de medo de sermos a próxima vítima. Naquela altura ninguém nos tinha ainda ensinado que, quando as ovelhas se unem, os lobos se deitam com fome. Então fugimos dali para fora enquanto a nossa colega, naquela que foi, provavelmente, a maior humilhação da vida dela, se tentava levantar e limpar como podia.

Não sei o que foi feito dessa colega. Há anos que não a vejo. Mas não acredito que este episódio não lhe tenha deixado marcas. Não acredito que não haja um antes e um depois deste episódio na vida dela. Na minha há. Porque depois de tudo aquilo, depois de me ter portado como um rato, fartei-me de chorar. E chorei de vergonha de mim própria e da minha cobardia, que me fez fugir em vez de ajudar. É que se fôssemos duas contra uma talvez as coisas tivessem sido diferentes. E quem sabe se outras pessoas não se juntariam também. Podíamos ter retirado o poder à nossa agressora e, no final, fizemos precisamente o contrário.

Caramba, o bullying aterroriza-me. E ser mãe de um menino surdo só faz aumentar o receio. Porque eu não quero que o meu filho seja uma vítima. Mas acreditem que me aterroriza de igual forma o outro lado, o ser mãe de um agressor, o ter de olhar para o meu filho e perguntar onde é que falhei para que ele não perceba o respeito e a empatia.

Creio que as mães das crianças e dos jovens agressores, desde que não padeçam da síndrome de “o meu filho é um santo”, se devem sentir tão mal como as mães das vítimas. Com a agravante de que nelas o sentimento de culpa é ainda maior. Porque é impossível ser-se mãe de um agressor e não se sentir que se falhou em toda a linha, que a mensagem não passou e que os valores que lhes tentámos transmitir se perderam algures.

Se é verdade que a psicopatia está relativamente bem estudada, também é verdade que está provado que a maioria dos agressores tem contextos complicados por trás. E, não pretendendo desculpá-los de todo, aquela é provavelmente a única forma que conhecem para lidar com sentimentos e situações que não sabem gerir. É por isso que, ao mesmo tempo que acredito que devem ser penalizados pelos seus comportamentos de acordo com o que for apropriado para a sua faixa etária, também acredito que devem ser trabalhados e tão apoiados quanto possível. O bullying não se combate se investirmos apenas num dos lados.

O meu filho Pedro, que anda ali a apanhar caracóis no quintal enquanto canta a plenos pulmões o “amor para a vida toda” num português cheio de falhas, é feliz. Sinto isso todos os dias. É feliz com a prótese que prende com uma mola em forma de jipe na parte de trás da camisola, é feliz com o implante que adora mostrar como se tivesse poderes mágicos e, acima de tudo, é feliz também no silêncio que, para ele, tem o sabor e o conforto de uma casa.

E tudo aquilo que eu quero é que jamais lhe roubem esta felicidade e esta capacidade de encarar os outros e de dizer com um sorriso “não consegui ouvir, podes repetir, por favor?”. Tudo aquilo que eu quero é que ele não se sinta sozinho, que não seja uma vítima nem um dos que viram as costas com medo. Quero que ele fique e que saiba defender-se a ele e aos outros. Pela minha parte juro que vou tentar educá-lo para que ele seja um dos que, sem medo, obrigam o lobo a deitar-se com fome.