Nuno Pinto e o planeamento urbano

A segregação social das cidade é um dos interesses do investigador Nuno Pinto. Tal como noutros casos, a pandemia expôs a realidade de as cidades portuguesas serem demasiado segregadas.

Na mais recente edição do podcast do PÚBLICO “Assim Fala a Ciência”, que tem o apoio da Fundação Francisco Manuel dos Santos e que é co-organizado por mim e pelo Carlos Fiolhais, tive o gosto de conversar com o especialista em planeamento urbano Nuno Pinto, formado em Engenharia Civil na Universidade de Coimbra e com mestrado em Planeamento Urbano pela Universidade do Porto. Doutorou-se depois na Universidade Politécnica da Catalunha na mesma área e é hoje professor e investigador na Universidade de Manchester, no Reino Unido.

Comecei por lhe perguntar sobre o seu trabalho de investigação em planeamento urbano e design urbano, que tipo de questões procura elucidar e que métodos utiliza. Falámos de alguns exemplos extremos de planeamento, do caso de países, como o Brasil ou a Austrália, que decidiram construir cidades de raiz para serem as suas capitais e das lições podemos tirar dessas experiências. Disse-me que Brasília, por exemplo, nunca cumpriu muitos dos objectivos pretendidos. Tendo sido pensada para ser uma cidade com 600 mil habitantes, tem hoje cerca de quatro milhões, sendo uma cidade socialmente muito segregada.

Esse é outro dos interesses de Nuno Pinto. Perguntei-lhe se as cidades portuguesas também são demasiado segregadas. Tal como noutros casos, a pandemia expôs essa realidade. No início do primeiro desconfinamento deparámo-nos com autocarros sobrelotados provindos de zonas periféricas à cidade de Lisboa, transportando trabalhadores de sectores, como o das limpezas, que não podem trabalhar remotamente. A pandemia expôs ainda erros de planeamento urbano, quando muitas pessoas ficaram confinadas a zonas mal planeadas, sem condições adequadas para a prática de actividade física e com insuficientes serviços de proximidade.

Falámos do tempo pós-pandémico que se avizinha. Os planos de recuperação de muitos países incluem a construção de novas infra-estruturas. Em Portugal fala-se muito do uso da “bazuca” para obras públicas como habitação e transportes urbanos. Há o receio de que essas obras, não só em Portugal mas em toda a Europa, sejam decididas de modo apressado com o fito de estimular a economia, sacrificando o planeamento e a adequada ponderação.

Nuno Pinto é professor na Universidade de Manchester, mas já teve a experiência de ensinar numa universidade em Portugal. Para terminar, quis saber como vê o ensino superior nos dois países. Falámos de algumas diferenças, como a evidente diferença de meios: as universidades no Reino Unido têm orçamentos muitos superiores. Mas há outras, como o bem identificado problema da endogamia nas universidades portugueses, ou seja, a contratação sistemática de pessoas que já estão na instituição há muito tempo, em detrimento de candidatos de fora. Nuno Pinto contrastou com o caso do seu departamento em Manchester, muitíssimo internacional e com pouquíssimos professores “de dentro”.

Daqui a 15 dias haverá novo podcast com mais um dos cientistas e técnicos da rede GPS – Global Portuguese Scientists, que têm ajudado a criar e a espalhar o saber. Para ouvir, subscreva o Assim Fala a Ciência na Apple Podcasts, Spotify, SoundCloud ou outras aplicações para podcasts.

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Este programa tem o apoio da Fundação Francisco Manuel dos Santos.