Decisão britânica: Algarve a fazer travagem às quatro rodas

A notícia do governo britânico atirar, de novo, Portugal para a lista dos destinos de risco, provocou uma “queda a pique” no turismo algarvio. Nos dois próximos fins-de-semana, os portugueses ocupam o lugar dos britânicos.

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Rui Gaudencio

Nas últimas duas semanas, passaram pelo aeroporto de Faro 100 mil britânicos. Os fluxos turísticos estavam em crescente. O processo, de repente, foi interrompido e a esperança é que o castigo britânico seja só um aviso: “Tivemos que fazer uma travagem às quatro rodas”, comentou o administrador hoteleiro Pedro Lopes, prevendo que nos próximos dias haja “quedas a pique” na ocupação das camas. Os portugueses, em compensação, preparam-se para fazer as malas rumo às praias do Sul, aproveitando a “ponte” dos feriados dos dois próximos fins-de-semana.

A notícia de que os turistas ingleses que passaram por Portugal ficam obrigados a fazer um período de quarentena a partir de segunda-feira baralhou as contas de multiplicar que o sector turístico estava a fazer. “Os operadores mandaram, de imediato, cancelar reservas”, afirmou Pedro Lopes, do grupo hotéis Pestana: “Estávamos com ocupações na ordem dos 80% nas três unidades que temos abertas. Agora, tivemos que fazer uma travagem às quatro rodas”, sublinhou. A avaliação do estado sanitário português, na óptica das autoridades britânicas, admite, “vai obrigar a uma gestão complicada”, feita de incertezas, ditadas pela evolução do estado sanitário do país. “Ainda não sabemos quantos clientes ingleses vão interromper as férias para escapar a um período de quarentena, no regresso”. Porém, admite, no próximo dia 21 - altura em que as autoridades britânicas farão nova avaliação – “vamos certamente assistir a um grande número de cancelamento de reservas”

O director do Hotel D. José, João Soares, notou sinais de “preocupação” entre a clientela britânica. “Muitos, certamente, vão interromper as férias até terça-feira”, enfatiza. Mas, por outro lado, acrescenta: “Espero ter o hotel [em Quarteira] cheio nos próximos dois fins-de-semana com os portugueses que vêm aproveitar as ‘pontes’ dos feriados”. No mesmo sentido, acrescenta Pedro Lopes, as pousadas de Sagres, Tavira e Estoi (grupo Pestana) estão “quase cheias, maioritariamente com clientes portugueses”.

A ideia das “dificuldades de gestão”, geradas pelo abrir e fechar portas do mercado britânico é partilhada por João Soares, também delegado regional da Associação dos Hotéis de Portugal (AHP): “Vamos ter dificuldade em contratar trabalhadores, as pessoas exigem alguma estabilidade - contratos de pelo menos seis meses”, e o futuro do Verão turístico é uma incógnita

Os primeiros reflexos das incertezas, diz o presidente da Região de Turismo do Algarve (RTA), João Fernandes, “traduzem-se no cancelamentos de voos nas próximas três semanas” assim que a notícia foi divulgada. “Ainda não temos números, mas a queda vai ser grande”, estima. De qualquer modo, este dirigente oficial do turismo acha que os valores de propagação da covid 19 não justificariam a decisão do Governo britânico de colocar Portugal na lista ambar.

Dos testes feitos aos 100 mil passageiros do Reino Unido que passaram pelo aeroporto de Faro, nas últimas duas semanas, apenas dez deram positivos, dos quais quatro são ingleses residentes”, exemplificou. Por isso, manifesta a convicção de que, a partir do próximo dia 21, quando as autoridades inglesas fizeram nova avaliação, “Portugal possa regressar à lista verde”. Nessa altura, observa Pedro Lopes, “não vamos ser os únicos da Europa, como estava a acontecer”.

Por seu lado, o delegado da Associação dos Industriais de Aluguer de Automóveis (ARAC), Honório Teixeira, ilustra a situação com dos carros alugados: “A frota dos rent-a-car [9 a 10 mil carros nesta altura do ano] já não chegava para a procura que estamos a ter”. Nos próximos dias, antevê, os automóveis regressam ao parque.

Da parte da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), Elidérico Viegas acha que decisão do Governo inglês em relação a Portugal teve motivações económicas: “Não podemos esquecer que o Reino Unido é emissor de turistas e nós somos receptores”, comentou. Em 2019, o ano de referência para avaliação do sector turístico, o aeroporto de Faro recebeu 2 milhões e 193 mil britânicos, o que representa 48,7% do total dos passageiros. Em relação ao facto de Portugal ter levado um “cartão amarelo” por ter pisado o risco das regras sanitárias, criticou: “Não é a primeira vez que não sabemos comunicar lá para fora, de forma eficaz e atempada, a situação da propagação da covid-19”.