Do conflito à convivência, a bicicleta chega “à cidade” para o seu congresso anual

Congresso Ibérico A Bicicleta e a Cidade arranca esta quinta-feira, em Barcelos, com dois dias de debates centrados na utilização quotidiana deste meio de transporte.

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Nalgumas cidades pais tentar encontrar condições para que as crianças pedalem para a escola

A cidade ainda assusta? A quem quer andar de bicicleta, sim, garante, do alto dos seus 78 anos, o presidente da Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta. A três dias do arranque, em Barcelos, de mais um congresso Ibérico A Bicicleta e a Cidade, que a FPCUB organiza com a sua congénere espanhola Conbici, José Manuel Caetano defende que a grande prioridade de um decisor atento, que pretenda ultrapassar este receio, deve passar pela reorganização do espaço público urbano, de modo a garantir a convivência entre o automóvel e aqueles que optam pela bicla nas suas deslocações diárias. 

Mais do que um activismo em favor de um modo específico, os vários painéis de oradores deste XVII congresso deixam antever uma discussão que toca um dos grandes temas do urbanismo actual, a que a pandemia veio apenas dar mais visibilidade: a distribuição do espaço público, muito centrado no uso do automóvel e, em muitos casos, possibilitando velocidades que põem em risco outros utilizadores: os peões e, claro, quem segue em bicicleta. 

Projectos nas comunidades

Barcelos, que acolhe este congresso, quer assinalar a mudança. E na quinta-feira, em pleno Dia Mundial da Bicicleta, depois da sessão de abertura protocolar – em que participarão, entre outros, o secretário de Estado da Mobilidade, Eduardo Pinheiro, e o presidente da República, com mensagem gravada – os anfitriões vão dar conta da sua pedalada. O município vai apresentar a sua estratégia de mobilidade urbana, que, para além do transporte público, inclui uma aposta clara na mobilidade suave, ou activa. E divulgará, neste campo, o projecto da primeira fase da rede ciclável local. 

Os dois dias de congresso incluem painéis dedicados à bicicleta na comunidade, permitindo a divulgação de projectos nos dois países como por exemplo o ciclismo no pré-escolar (Luís Gameiro), ou os comboios de bicicletas para a escola (por João Clemente, de Belém, Lisboa e Joana Ivónia, de Aveiro). Cátia Rosas leva a Barcelos o trabalho da Junta dos Olivais, na capital, na mobilidade sustentável, e Cristiana Mercê e Vera Diogo dedicam as suas apresentações à aprendizagem do uso da bicicleta. 

Abrandar, para conviver

“A Era da Infra-estrutura” é o tema-chave desta XVII edição do congresso ibérico, que inclui comunicações de participantes de Portugal e Espanha. E na tarde de quinta-feira o painel “Reorganizar as cidades” dedicará atenção a aspectos como o desenho urbano (Paula Teles, da empresa de planeamento MPT), o estacionamento de bicicletas (Rui Amador, da Biciway), a segregação de modos de tráfego (Pierre Coent, da Zicla) e a experiências em Guimarães (o EducaBicla, por Ana Vasconcelos Pinto, da Get Green) e Braga, numa intervenção do Bicycle Mayor Local, Mário Meireles. Activista cuja tese de doutoramento deu conta do potencial de utilização deste meio de transporte, na cidade.

Para José Manuel Caetano, nem seria preciso andar a espalhar ciclovias pelas cidades, se todas optassem por reduzir a velocidade de circulação no espaço urbano, permitindo a convivência e, dessa forma, reduzindo o conflito. Moderada por Ana Tomaz, vice-presidente da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, a última mesa do primeiro dia do congresso é precisamente dedicada ao tema “políticas e conflitos”. José Paulo Esperança falará sobre “A Ciência da Bicicleta”, enquanto de Espanha, Joaquín Vilas desenvolverá algumas ideias sobre “Conflitos entre ciclistas, automobilistas e peões” e José Elias Ramalho reflectirá sobre “vivências urbanas e bicicleta numa nova cidade política”.

Do país vizinho chegam ainda duas comunicações que olham para o tema numa perspectiva de género: “Três mulheres chilenas ciclo-viajantes ao encontro da comunidade”, por Sandra Troncoso, e “o (des)uso da bicicleta a partir de um enfoque feminista”, por Iria Vázquez Silva.

Turismo e tecnologia

Na sexta-feira, para além do segundo painel dedicado às experiências comunitárias, o centro das atenções passará, de manhã, pelos aspectos mais ligados à saúde, à qualidade do ar e, numa segunda mesa, pela “Bici-Economia” e pelo turismo. Antes da sessão de encerramento, em que o presidente do Instituto da Mobilidade e Transportes fará um ponto da situação da Estratégia Nacional para a Mobilidade Activa e Ciclável, haverá ainda tempo para um última ronda de intervenções dedicadas a projectos tecnológicos que podem, de alguma forma, incentivar o uso da bicicleta, como o AYR, do CEIIA (Por Catarina Selada), ou a start-up Cycle AI (por Miguel Sampaio Peliteiro), entre outros. 

O programa está disponível na página da FPCUB, que já encerrou as inscrições para o evento (presencialmente e online), mas abre as duas primeiras sessões, e o encerramento, ao público, através da respectiva página do Facebook.