Bullying: Ninguém está bem quando há medo e violência por perto

Quem pensa que o bullying é um conflito que deve ser resolvido entre crianças ou entre jovens está enganado. Os adultos também são responsáveis por procurar a resolução para este fenómeno.

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@petercalheiros

Recentemente, soubemos de mais uma notícia sobre a agressão a um jovem, vítima de bullying, desta vez, em plena rua e culminando em atropelamento. Apesar da associação frequente do bullying à violência física, entenda-se que este tipo de violência inclui atitudes intencionais e repetitivas de agressão, tanto física como psicológica, e ameaças por parte de um ou mais colegas sobre um outro colega ou grupo de colegas. Como consequência destas agressões recorrentes e que causam intimidação, podem surgir graves problemas na vítima, com impacto imediato na sua saúde psicológica, nomeadamente na sua vida social e emocional, gerando medo, insegurança, isolamento, fobia da escola, ansiedade e depressão.

Apesar da crescente visibilidade e crítica social dos fenómenos que envolvem a violência entre crianças e jovens, ainda há quem a encare como algo normal, sustentando algumas crenças à sua volta como, por exemplo: “Eu também passei por isso e só me tornou mais forte”, “Isso passa, só estão a brincar”.

Além disso, quem pensa que o bullying é um conflito que deve ser resolvido entre crianças ou entre jovens está enganado, os adultos também são responsáveis por procurar a resolução para este fenómeno que cria na vítima a sensação de impotência e de humilhação. Atirar com as culpas para a idade, classe social ou recorrer a outras formas de banalização são formas fáceis de pôr-se de fora. É preciso encarar o bullying como um problema social grave e de todos nós, porque ninguém está bem quando há medo e violência por perto.

Existem factores ambientais, emocionais e de personalidade que, quando conjugados, podem contribuir para que uma criança se torne um agressor. Algumas causas apresentadas na literatura incluem: carência afectiva, ausência de limites e de valores morais, maltrato e aprendizagem de comportamentos violentos observados na interacção familiar, independentemente do estatuto social e económico. Sendo a família e a escola os principais educadores, é preciso cultivar a tolerância, incentivando crianças e jovens a uma atitude de respeito pelo outro, por mais diferente que seja de si, quer seja pela cor da pele, pelo uso de óculos ou de aparelho nos dentes.

Tratando-se de um fenómeno muito complexo e antigo, o bullying requer uma reflexão social que encaminhe para a sua prevenção e controlo. A escola tem um papel fulcral contra o bullying, pois é o local onde este fenómeno ocorre. Algumas escolas têm demonstrado um forte compromisso com a prevenção do bullying e com a segurança das crianças, mas, sozinhos, não conseguem lidar. Mas os pais também devem fazer parte da solução, actuando em conjunto com a escola, em prol da criação de uma escola segura e livre de agressões.

Assim, a mudança tem de passar por todos, sendo que os adultos devem educar para a cidadania e contrariar crenças, atitudes e percepções que podem estar a causar e a manter a agressão. É preciso que os adultos mostrem a importância de se valorizar e respeitar as pessoas, sejam crianças, pais, professores ou colegas de trabalho. Chamar “burro”, “fraco”, “chorão”, “desajeitado”, puxar orelhas ou dar um estalo ou um “cascudo” na cabeça, ensina e propaga a violência. Urge, então, assumir discursos e atitudes que digam “não” a comportamentos destrutivos e lesivos, física e psicologicamente, tanto dentro de casa como no jardim-de-infância, na escola e noutros contextos sociais. Este deve ser o princípio da educação social contra o bullying.