O “sistema antimísseis” para combater a desinformação na Europa a partir da Península Ibérica

Rede europeia para combater a desinformação conta com presença portuguesa.

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Projecto europeu para combater desinformação conta com portugueses Miguel Manso

O ISCTE, em Portugal, e a Universidade de Navarra, em Espanha, vão assumir a liderança de um consórcio que junta 23 instituições espanholas e portugueses, com o objectivo de controlar as cadeias de desinformação online. O Iberifier, que arranca em Setembro, recebeu 1,47 milhões de euros de financiamento europeu e é um dos oito pólos regionais que integram o Observatório Europeu dos Media Digitais da Comissão Europeia. 

“O objectivo é criar uma espécie de rede de alerta, como um sistema antimísseis, que reporte qualquer tipo de ameaça relacionada com desinformação”, explica ao PÚBLICO Ramón Salaverría, investigador principal do Iberifier e docente na Universidade de Navarra, em Espanha. 

O consórcio ibérico conta com mais 11 universidades, cinco organizações de fact-checking e seis centros de investigação multidisciplinares. “O projecto nasce da inquietação da Comissão Europeia depois de uma série de acontecimentos como o ‘Brexit’, as eleições presidenciais dos EUA em 2016 ou as europeias. Houve vários conteúdos disruptivos de desinformação que condicionaram a opinião pública e que podem ser, em determinados casos, uma ameaça à estrutura da UE”, sublinha o investigador espanhol.

Equipa multidisciplinar com marca portuguesa 

Do lado português, a coordenação científica está assegurada por Gustavo Cardoso, Miguel Crespo, Vítor Tomé (ISCTE), Vania Baldi (Universidade de Aveiro) e Miguel Paisana (OberCom). “É muito importante para Portugal estar envolvido neste projecto europeu. É mais uma possibilidade para que conteúdos em língua portuguesa sejam verificados”, refere ao PÚBLICO Gustavo Cardoso. “Trata-se de uma oportunidade de capitalizar o investimento que muitas instituições portuguesas têm feito ao longo dos últimos anos”, assegura o investigador.

Com uma linha que procura cruzar especialistas das áreas da comunicação e da data science, o projecto assenta em quatro desafios principais: analisar os ecossistemas digitais dos países envolvidos; desenvolver tecnologias computacionais para a detecção precoce de conteúdos de desinformação; fact-checking; e alfabetização. “Os processos políticos disruptivos com influência externa como aconteceu no caso da Catalunha estão documentados. Há provas de ameaças que chegam de países como a Rússia e, no caso ibérico, tanto Portugal como Espanha são permeáveis aos conteúdos com origem no Brasil e Venezuela”, justifica o investigador espanhol.

Uma das primeiras tarefas a ser desenvolvida pela equipa portuguesa passa pelo desenvolvimento de um “atlas digital”. “Há espaços utilizados para o consumo de informação que não são jornais. É importante compreender os locais onde as pessoas encontram a informação e os seus hábitos. O objectivo do projecto não é acabar com a desinformação, mas compreender como ela funciona”, diz Gustavo Cardoso.

Covid-19 reforça necessidade do combate à desinformação 

Apesar dos exemplos relacionados com a política, a equipa de investigadores está também atenta a outras áreas em que a desinformação se assume como uma potencial ameaça.

E, mais de um ano depois da chegada da covid-19 à Europa, são já inúmeros os exemplos dos perigos associados a esta realidade. “Temos os casos das terapias milagrosas que se espalharam pela rede no início da pandemia e até motivadas por agentes políticos. Mas, em pouco tempo, de um assunto sanitário passou a ser um desafio social, económico e político”, explica Ramón Salaverria, que acredita que o desenvolvimento das vacinas veio acelerar e tornar mais eficaz o processo de desinformação.

“Há uma tentativa de alguns países em descredibilizar as vacinas desenvolvidas por outros. Os conflitos já não se fazem tanto no campo de batalha, mas também na esfera digital”, assume o especialista. 

O financiamento europeu tem a duração de dois anos e meio e arrancará em Setembro.