A boleia

O Chiado estava entupido de gente embrulhada para a época. Uma sofreguidão sem sensatez com que todos pactuamos.

Foto
"A vida era muito mais simples há 13 anos" Mag Rodrigues

A chuva veio sem avisar naquele fim de tarde. Eu estava a um mês de ser mãe e saí para as compras de Natal como se a barriga me fizesse olhar mais para o chão e menos para o céu. Não vi as nuvens. Nessa altura ainda nenhum taxista me tinha dito: “Eu nunca vejo o tempo para amanhã. Gosto de ser surpreendido.”

O Chiado, em Lisboa, estava entupido de gente embrulhada para a época. Uma sofreguidão sem sensatez com que todos pactuamos.

Subi e desci as ruas. Esbarrei com a barriga e os sacos na multidão apressada e, de repente, uma bátega lavou dali o formigueiro da hora de ponta. Corri para um táxi, mas como eu, outros carregados de tudo e sem ideias para mais nada, formaram fila comigo.

A chuva caía sem piedade e a minha barriga amontoava-se entre os embrulhos que se fizeram sem medir necessidades. Tudo isso é irrelevante até porque o erro do Natal vai repetir-se a cada Dezembro. Precisamos dessa repetição para sentirmos que nem tudo nos escapou…

A fila era proporcional à carga de água que caía: cada vez maior. Eu ensopada, cabelo escorrido, olhos esborratados e vontade de gritar por ajuda quando estávamos todos no mesmo barco: à espera de um táxi que nos levasse dali para fora.

Foi há muitos anos. Antes desse gesto banal de pegarmos num telemóvel para mandar vir um carro. A vida era muito mais simples há 13 anos. Pedíamos uma pizza por telefone e já nos sentíamos com poder.

Não veio táxi nenhum naquela hora. Com toda a certeza muitas mais seriam necessárias para que eu tivesse um lugar seco e quente num carro seguro, mas algo inédito aconteceu: um táxi passou pela fila e parou frente a mim. Lá dentro um homem de fato, elegante, abriu a porta e disse: “Venha que eu levo-a.” Não me perguntem o que me levou a entrar sem hesitar, a não ser o desconforto todo que morava em mim. Entrei no táxi com a barriga e os embrulhos. E seguimos viagem.

O homem era alto (pelo espaço que as suas pernas ocupavam) e muito bem-parecido. Férias na neve, três filhos, actividade na banca e ali estava comigo a falar-me da sua vida enquanto eu me perguntava por que teria ele parado o táxi para levar a grávida. Não podia ser só a barriga em fim de tempo e a mulher ensopada prestes a ser mãe. Foi qualquer coisa que o destino, sem eu reparar no céu naquele dia, quis que acontecesse. E ele deixou-me à porta de casa sem deixar que eu comparticipasse a viagem. Despedi-me agradecendo e subi as escadas rumo ao conforto desejado.

Nunca mais vi o homem, não sei o nome dele, não o reconheceria se o encontrasse embora gostasse muito de lhe agradecer tantos anos depois. Foi um episódio entre outros. Eu, por todos os motivos, guardo-o até hoje.

Talvez por causa disso tenha inventado uma forma de pensar numa triagem natural entre os que me deram amor e os que me tiraram horas de sono: numa noite de chuva intensa a quem darias boleia? A quem abririas a porta do teu «táxi»? Mentiria se dissesse que levaria todos. Não podemos levar todos nessa boleia ou estaríamos a incluir os menos bons nesse abrigo. Não gostando da ideia de perdão (o perdão está associado a uma ideia divina e superior e eu sou terrena) tenho passado a vida a desculpar as pessoas que, em algum momento, foram menos justas comigo. Ainda assim não banalizemos a boleia em noite de chuva.

Às vezes é mais fácil albergar um desconhecido do que alguém que traz consigo uma história passada. Se são pessoas boas ou más, só o momento em que nos cruzámos com elas o ditará. Somos bons e maus. Alternamos o sol com o céu carregado. Somos muitas coisas, muitas vezes, mas esquecer o bem ou banalizar o mal retiraria importância às boleias que a vida nos dá.

Conheci várias pessoas a quem a vida deu boleia em noite de tempestade e elas não a souberam aproveitar. Na morada seguinte já se tinham esquecido da bondade espontânea.

Quando chover muito outra vez, lembrem-se das pessoas que merecem ser abrigadas. Não há lugar para todos.

Há gente que nunca disse um ‘obrigada’.