Toda a verdade sobre o Seaspiracy, da Netflix: podemos continuar a comer peixe?

Os documentários da moda procuram induzir o medo/pânico/revolta sobre um determinado tema contando apenas uma parte da história.

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O Seaspiracy levanta uma gigantesca matriosca de problemas sobre a pesca e os oceanos. Nelson Garrido

Estamos em 2021. A indústria do entretenimento procura a todo o custo conteúdos que promovam as reações mais intensas possíveis, desde as musiquinhas tristes em histórias também elas tristes para provocar o choro no espectador, a anúncios publicitários com músicas e histórias de superação para depois podermos publicar nas redes sociais “o anúncio da marca X ao qual ninguém consegue ficar indiferente ou que está a comover a Internet”. Com os documentários acontece o mesmo. Mais do que assentar em factos, os documentários da moda procuram induzir o medo/pânico/revolta sobre um determinado tema, contando apenas uma parte da história (normalmente a mais escabrosa possível), mostrando as piores práticas e enchendo de lama todo um tema/indústria quando, por norma, apenas uma pequena parte dele merece esse rótulo.

Com o Seaspiracy da Netflix acontece o mesmo? O Seaspiracy levanta uma gigantesca matriosca de problemas sobre a pesca e os oceanos. Inicia-se com o plástico nos oceanos e segue de forma imparável com a caça às baleias no Japão, sobrepesca de golfinhos e atum-rabilho, a captura excessiva de tubarão para aproveitamento da sua barbatana, os selos falsos de Dolphin Safe e de MSC (Marine Stewardship Council), as mortes de peixes por pesca acessória, as tartarugas presas em redes de pesca, os perigos e mitos da aquacultura, os “camarões de sangue”, terminando com imagens impressionantes sobre caça às baleias nas ilhas Faroé.

É certo que todos estes problemas são uma realidade e sem dúvida que existem momentos no documentário que chocam e repugnam até o mais profundo cético que conhece as artimanhas sobre como fazer este tipo de conteúdos. Felizmente, a mesma Internet que nos faz ter acesso e estes documentários também nos permite outra ferramenta: verificar a sua veracidade. Aqui ficam alguns esclarecimentos sobre as alegações transmitidas no mesmo:

“Os oceanos ficarão sem peixe até 2048.”

É falso. Os esforços de milhares de cientistas, pescadores e organizações não-governamentais resultaram numa melhoria significativa das pescas e as populações monitorizadas de peixe (mais de metade do total) têm aumentado;

“40% de toda a pesca é desenvolvida como pesca acessória.”

É falso. Os dados mais recentes apontam para que a pesca acessória (captura acidental ou não-intencional de espécies aquáticas que não a espécie-alvo) ronde os 10% do total de capturas. Não sendo um valor ótimo, é preciso, ainda assim, relembrar que a pesca acessória é considerada sustentável desde que não incida sobre espécies ameaçadas. É também referido que 250 mil tartarugas são mortas todos os anos neste processo nos EUA, sendo o número real mais recente de 4600, valor que, por si só, já é impressionante e não precisava de ser amplificado mais de 50 vezes (mesmo tendo em conta que a população de tartarugas tem aumentado significativamente);

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Os esforços de milhares de cientistas, pescadores e ONG resultaram numa melhoria significativa das pescas e as populações monitorizadas de peixe têm aumentado Nelson Garrido

“Os observadores são corruptos e mentem sobre quantidade de peixe capturada.”

É falso. Esta é uma prática ilegal que pode terminar com a cassação da licença do pescador e existe cada vez mais tecnologia a bordo que permite uma pesca mais transparente;

“As certificações MSC e Dolphin Safe são fáceis de obter e não são credíveis.”

É falso. As certificações MSC são emitidas por auditores independentes e o seu trabalho na melhoria da sustentabilidade das pescarias está publicado. No caso do selo Dolphin Safe, só o podem ostentar as empresas que cumpram as medidas governamentais norte-americanas de proteção dos golfinhos. Estas medidas permitiram que o número de mortes de golfinhos causada pela pesca do atum no oceano Pacífico descesse de 252 mil/ano em 1972 para 778 em 2019;

“A aquacultura não é a solução, mas um problema ainda maior.”

É tremendamente falso. A aquacultura é hoje responsável por mais de metade do pescado consumido no mundo e é absolutamente essencial para reduzir a pressão nos stocks de espécies selvagens, de maneira a que se possam satisfazer as necessidades globais sem recorrer à sobrepesca.

Há que louvar o mérito do Seaspiracy em levantar estes problemas e tornar o consumidor mais atento e exigente a práticas sustentáveis em todo o pescado que come. Mas, mais uma vez, caímos no erro do costume quanto à comunicação. Quando apenas se procura o choque e divulgar as piores práticas sem mostrar o outro lado ou sugerir soluções, o resultado é aumentar ainda mais a polarização.

Esta atitude radical faz as delícias de pessoas que já estão sensibilizadas para o tema, pois vêem os seus argumentos legitimados e ficam com o seu ego e consciência ambiental ainda mais insuflados e, no limite, consegue captar (ou iludir) outras mais sensíveis a este tipo de documentários (a chamada “geração Netflix”, que se torna automaticamente especialista e ativista de uma causa que desconhece, apenas depois de ter visto um documentário). Para o resto das pessoas (talvez as que mais precisassem), esta linguagem não serve.

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O atum-rabilho é um dos protagonistas de Seaspiracy, pela alegada sobrepesca de que é alvo Adriano Miranda

Se tudo tem problemas e “está minado” — desde os metais pesados e problemas da pesca no peixe, às hormonas, antibióticos e outras fábulas na carne, leite e ovos, dos pesticidas na fruta e legumes não-biológicos —, então “eu vou comer simplesmente o que me apetece”, porque “de alguma coisa terei de morrer” e “não quero ser a pessoa mais saudável do cemitério”.

Não se mudam mentalidades a falar apenas para o nosso público-alvo e dentro da nossa bolha de contactos e redes sociais onde toda a gente pensa da mesma forma que eu.

No final do documentário, depois de se ter disparado em todas as direções, a única solução dada foi “deixar de comer peixe” (e haveria tantas outras), como se a alimentação de milhões de pessoas em todo o mundo não dependesse disso.

Por isso, por mais que tenha ficado sensibilizado com o Seaspiracy, este mais não é do que uma demonstração dos problemas do Primeiro Mundo, onde a propaganda vegan vive instalada.


Nutricionista