A minha escola está em 498.º e, no entanto, é a melhor do mundo

Todas as escolas são as melhores do mundo, quando por saudade e carinho lá voltamos todos os anos e em jeito de peregrinação ao lugar onde um dia nascemos.

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Rui Gaudencio

Se hoje estou onde estou, na direcção de uma escola em Londres, tal devo em grande parte não só à escola pública, mas à minha escola, aos meus professores, ao tempo dedicado, à sua infinita paciência, ao amor e carinho e à fé (às vezes, é preciso muita fé) tão necessária quando se dedica uma vida a educar e formar gerações e gerações de crianças. 

Estou, obviamente e como o título indica, a falar da melhor escola do mundo: a Escola Secundária do Monte de Caparica. E não, ninguém diria, ou não estivesse a escola em 498.° no ranking, depois de uma queda de quase 100 lugares desde 2020. E como a medida de sucesso se baseia, hoje e sempre, na hipocrisia das notas de acesso à universidade sem ter em conta o verdadeiro trabalho levado a cabo pelos professores e pessoal auxiliar a queimar as pestanas de manhã à noite em prol das crianças que um dia fomos, a verdade foi a de ter entrado para a universidade, mais precisamente Biologia, e com uma média de 19 na mesma disciplina. Entre colegas e amigos, três entraram para Medicina. E como mais ninguém queria ir para Medicina, a taxa de sucesso foi de 100%.

E se um dia entrei para o curso de eleição na faculdade de eleição, devo-o infinitamente aos meus professores, os professores que nos acompanharam durante seis anos, do 7.º ao 12.º, desde a professora Margarida, que tantas vezes fez a vez de nossa mãe, ao professor Fernando e à professora Cristina que me ensinaram sobre o amor e o método da Biologia, a professora Alda e a sua infinita energia físico-química, a professora Manuela Carolino que de tanto acreditar em mim levou-me até ao fim.

Mas não só. A memória atraiçoa-me e, de repente, é impossível nomear todos os professores de um percurso de anos, o professor João, de Geografia, que nos ensinou sobre debates, as professoras de Inglês e Português e a paixão pelas letras e línguas, a professora de Filosofia sempre no leito de Freud e, no entanto, ainda hoje presente no modo de pensar e ver o mundo e Freud tinha razão.

E não só, ou não fosse a escola um lugar de aprendizagens e vivências sociais, onde fiz amizades para a vida, onde conheci o amor, onde vivi e sonhei todos os dias e onde ainda hoje volto apesar de já tantos anos passados e todos os cabelos brancos.

Trago a Escola Secundária do Monte de Caparica no coração. Localizada nos arredores de Lisboa e, por sua, vez, nos arredores de Almada, é uma escola pública de onde saíram professores, directores, escritores, médicos, engenheiros e arquitectos e tudo isto num ano só. Agora somemos todos os anos e talvez possamos concluir ser esta, de facto, a melhor escola do mundo, assim como a tua escola e todas as escolas são as melhores do mundo, quando por saudade e carinho lá voltamos todos os anos e em jeito de peregrinação ao lugar onde um dia nascemos.